• A linguagem da violência de gênero como combustível para a política

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    Recorrentes aumentos nos preços dos combustíveis e inflação desenfreada são alguns dos assuntos mais noticiados, postados e repostados no Brasil de 2022. A economia como ordem do dia na política, no entanto, não é um fenômeno recente e, nos últimos anos, tem ganhado contornos capazes de redirecionar os rumos do jogo político nacional. A título de exemplo, convém lembrar a efetividade da retórica sobre a “crise econômica brasileira” que, ainda em 2015, produziu uma atmosfera de instabilidade política decisiva para o país, tendo como corolário a destituição do governo Dilma Rousseff em 2016. Curiosamente, a despeito do que previa quem apoiava o chamado impeachment, a “retirada do PT” do “poder” não produziu a sonhada pacificação econômica. A redução ou estabilização dos preços dos combustíveis também não aconteceu.

    Written on 22.06.2022 in Gênero e sexualidade Read more...
  • A teorização sobre conspirações online

    A teorização sobre conspirações online não é apenas um objeto interessante de pesquisa em si, mas parece ser também um terreno fértil para a compreensão da mídia, cultura e política atuais de forma mais geral.

    Written on 17.05.2022 in Tecnologias Read more...
  • A violência linguística em um jogo eletrônico como estratégia de controle social

    Em um momento em que a atenção não se fixa em nada por muito tempo, é surpreendente as longas horas que diversos gamers gastam em jogos eletrônicos, o que tem colocado alguns responsáveis e a sociedade de forma mais ampla em alerta. Um gênero de jogo que tem recebido atenção particular é o gore, isto é, jogos contendo cenas mais ou menos gráficas de violência (armas, sangue jorrando, lutas de rua etc.). Alguns desses jogos já foram duramente criticados na mídia, e até legalmente censurados por supostamente induzirem os jogadores a cometerem atos de violência. Há também reações mistas e até publicações que questionam inteiramente a plausibilidade do argumento de que a fantasia de interpretar um personagem violento levaria o jogador a mimetizar a conduta do avatar do jogo. 

    Written on 27.04.2022 in Tecnologias Read more...
  • Brasil e o Fetiche Monolingue: Narcisismo e Apagamentos

    “É que Narciso acha feio o que não é espelho”

     (‘Sampa’, letra e música: Caetano Veloso)

    Quando utilizamos o nome Brasil,  frequentemente imaginamos uma unidade, não só territorial, mas linguística também, associando a língua portuguesa ao território brasileiro e estabelecendo um vínculo unificante entre os dois. Tal imaginação ainda sugere que todos os habitantes do país compartilham algo em comum: a mesma língua. Essa ideia é denominada monolinguismo. Mas o que a citação, tirada de uma música de Caetano tem a ver monolinguismo?

    Written on 11.04.2022 in Cultura Read more...
  • “Mas você tem certeza que foi isso que aconteceu?”: Gênero, violência e o questionamento da experiência

    Two people riding bikes in a tunnel

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    Mulheres entram no túnel Martim de Sá, que conecta os bairros Estácio e Lapa. Imagem: arquivo do coletivo “Minas na Pixxta”.

     

    Rio de Janeiro, cerca da meia-noite, um grupo de mulheres transita de bicicleta pela Rua Frei Caneca, no bairro do Estácio, rumo à Lapa. Desfrutam a serenidade da hora — a pista livre e a brisa noturna no rosto — enquanto deslizam em direção ao túnel que conecta um bairro a outro. Com o túnel já à vista, um ruído repentino abala a calma da noite— no horizonte, duas figuras descem a rua da direita de motocicleta, em rota de colisão com tudo aquilo que o grupo representa e almeja. Na disputa territorial anunciada, as mulheres aceleram, ocupando a pista, com a mira na boca do túnel — cientes de que, nessa guerra, há apenas um lado armado. Sua postura, defensiva e assertiva a um só tempo, não passa despercebida. Se valendo da velocidade proporcionada pelo motor, seus adversários avançam sobre o grupo já dentro do túnel — assinalando sua presença ao roçar contra os corpos alheios, reestabelecendo a ordem social convencional com um golpe forte contra a traseira do “infrator” mais próxima — a minha.

    Written on 30.03.2022 in Gênero e sexualidade Read more...

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Recorrentes aumentos nos preços dos combustíveis e inflação desenfreada são alguns dos assuntos mais noticiados, postados e repostados no Brasil de 2022. A economia como ordem do dia na política, no entanto, não é um fenômeno recente e, nos últimos anos, tem ganhado contornos capazes de redirecionar os rumos do jogo político nacional. A título de exemplo, convém lembrar a efetividade da retórica sobre a “crise econômica brasileira” que, ainda em 2015, produziu uma atmosfera de instabilidade política decisiva para o país, tendo como corolário a destituição do governo Dilma Rousseff em 2016. Curiosamente, a despeito do que previa quem apoiava o chamado impeachment, a “retirada do PT” do “poder” não produziu a sonhada pacificação econômica. A redução ou estabilização dos preços dos combustíveis também não aconteceu.

A teorização sobre conspirações online não é apenas um objeto interessante de pesquisa em si, mas parece ser também um terreno fértil para a compreensão da mídia, cultura e política atuais de forma mais geral.

Em um momento em que a atenção não se fixa em nada por muito tempo, é surpreendente as longas horas que diversos gamers gastam em jogos eletrônicos, o que tem colocado alguns responsáveis e a sociedade de forma mais ampla em alerta. Um gênero de jogo que tem recebido atenção particular é o gore, isto é, jogos contendo cenas mais ou menos gráficas de violência (armas, sangue jorrando, lutas de rua etc.). Alguns desses jogos já foram duramente criticados na mídia, e até legalmente censurados por supostamente induzirem os jogadores a cometerem atos de violência. Há também reações mistas e até publicações que questionam inteiramente a plausibilidade do argumento de que a fantasia de interpretar um personagem violento levaria o jogador a mimetizar a conduta do avatar do jogo. 

“É que Narciso acha feio o que não é espelho”

 (‘Sampa’, letra e música: Caetano Veloso)

Quando utilizamos o nome Brasil,  frequentemente imaginamos uma unidade, não só territorial, mas linguística também, associando a língua portuguesa ao território brasileiro e estabelecendo um vínculo unificante entre os dois. Tal imaginação ainda sugere que todos os habitantes do país compartilham algo em comum: a mesma língua. Essa ideia é denominada monolinguismo. Mas o que a citação, tirada de uma música de Caetano tem a ver monolinguismo?

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Mulheres entram no túnel Martim de Sá, que conecta os bairros Estácio e Lapa. Imagem: arquivo do coletivo “Minas na Pixxta”.

 

Rio de Janeiro, cerca da meia-noite, um grupo de mulheres transita de bicicleta pela Rua Frei Caneca, no bairro do Estácio, rumo à Lapa. Desfrutam a serenidade da hora — a pista livre e a brisa noturna no rosto — enquanto deslizam em direção ao túnel que conecta um bairro a outro. Com o túnel já à vista, um ruído repentino abala a calma da noite— no horizonte, duas figuras descem a rua da direita de motocicleta, em rota de colisão com tudo aquilo que o grupo representa e almeja. Na disputa territorial anunciada, as mulheres aceleram, ocupando a pista, com a mira na boca do túnel — cientes de que, nessa guerra, há apenas um lado armado. Sua postura, defensiva e assertiva a um só tempo, não passa despercebida. Se valendo da velocidade proporcionada pelo motor, seus adversários avançam sobre o grupo já dentro do túnel — assinalando sua presença ao roçar contra os corpos alheios, reestabelecendo a ordem social convencional com um golpe forte contra a traseira do “infrator” mais próxima — a minha.

Desde a década passada, vem crescendo um movimento entre a classe de atores humorísticos de busca por um novo tipo de humor. Esse movimento se afasta de piadas xenofóbicas, homofóbicas e dos estereótipos que, por anos, foram vistos como temas engraçados por nossa sociedade – a mulher loira burra, o gay afetado, o malandro carioca etc. O apelo humorístico de tais temáticas vem sendo questionado contemporaneamente, tendo perdido espaço entre o público mais socialmente engajado. Uma nova geração de humoristas conecta seu olhar às questões cotidianas, fomenta provocações e subverte a ordem de fatos históricos instigando a reflexão e a mudança de olhar.  Enfim, é um humor muito mais desafiador e politicamente engajado. 

 Um dia, em uma conversa entre amigos...

Janaina – Era hora do almoço, eu estava sentada no chão do quarto fazendo algo de que não me recordo, quando a notícia, vinda do quartinho de costura da minha mãe (que sempre ouviu a TV no último volume por causa do barulho do motor da máquina), atravessou a janela e chegou aos meus ouvidos: o novo coronavírus. Na China. Muito letal. Não sabemos a origem. “É questão de tempo até começarmos a viver isso aqui, e agora?”, eu pensei. Chorei e orei. Meses depois, quando ainda nem se falava do uso da máscara, encaro o trajeto Nova Iguaçu – Pavuna – Central – Fundão, para a primeira aula do mestrado na UFRJ. Separo um álcool 70 e fico um pouco apreensiva com os espirros e tosses dentro do vagão abarrotado. Duas semanas depois, parecíamos ter nos transportado para um mundo paralelo dessas séries da Netflix, ou melhor, para uma distopia.

No dia 08 de novembro de 2020, Marina Kohler Harkot foi atropelada e morta enquanto pedalava para sua casa na cidade de São Paulo. Marina tinha 28 anos. Cursava doutorado na USP, onde desenvolvia pesquisa sobre mobilidade urbana. Antes de sua morte precoce, nossas trajetórias acadêmicas se cruzaram apenas uma vez, no transcorrer de um seminário transdisciplinar, do qual fui uma das idealizadoras. A fim de participar, Marina se deslocou da cidade de São Paulo para o Rio de Janeiro e cativou as demais participantes com sua verdadeira vontade de fortalecer uma rede para além daquele mundo estritamente acadêmico. Para a jovem pesquisadora, aquilo não representava apenas mais um certificado, ou item no currículo lattes. Apesar de pertencer a campos de saber convencionalmente isolados, era nítido que compartilhávamos um ideal: a construção de cidades mais humanizadas - para a qual a própria vivência em cima da bicicleta era indissociável de qualquer reflexão acadêmica. Ansiava pela possibilidade de colaborações futuras. A pesquisa de Marina foi brutalmente interrompida, assim como a vida dela. Este curto texto se insere na busca da qual a doutoranda fazia parte, ao lançar um olhar crítico para a violência de que ela mesma foi vítima, buscando gerar conhecimento sobre sua dimensão discursiva, muitas vezes negligenciada pela pesquisa em Estudos da Linguagem.

     
 

A pichação possui registros históricos. Ela aparece nas paredes de Pompeia, cidade destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79. Com a popularização do aerossol, após a Segunda Guerra Mundial, a pichação ganha agilidade com a utilização do spray, amplamente manuseado na revolta estudantil de 1968 em Paris. No Brasil, o primeiro registro de pichação como arte foi o emblemático “Abaixo a Ditadura”. Era o começo da street art brasileira. Assim, a pichação política nasceu no meio universitário nacional, por meio de inscrições simples, uma vez que demandavam velocidade para escapar da repressão policial. Com o passar do tempo, as inscrições foram difundidas no meio urbano, fazendo surgir pichações não só em muros, mas em construções públicas, viadutos e monumentos. Nenhuma das pichações vinha ou vem assinada, sendo sua característica proeminente apenas a ideia de contrariedade ao regime.

Mãe Bá morreu no dia 11 de fevereiro de 2020. Era assim como eu chamava a minha segunda mãe. Ela faleceu antes que a pandemia nos tomasse de assalto. Por seu estado de saúde frágil, começou a usar máscara bem antes de nós: tinha a imunidade baixa e qualquer resfriado poderia complicar muito a sua situação. Estava internada em um bom hospital e fazia tratamento em uma das melhores clínicas oncológicas do Rio de Janeiro, porém, nada disso foi suficiente e ela terminaria dando adeus a este plano da existência. Perdeu a batalha para um tipo raro de leucemia. Já tinha tido câncer de mama há dez anos e pensávamos que se havia livrado de um rebrote. Infelizmente, estávamos equivocados. Só agora, um ano e meio depois, consigo me manifestar sobre o assunto. Talvez porque, apesar de sermos seres de linguagem, quando tomados por uma dor tão grande como a perda de uma pessoa amada, nos vejamos incapacitados de produzir entendimento sobre a experiência de sofrimento. 

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