• Fragilidade branca no Instagram
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    Há uma disparidade social quando se toma para análise o par binário branco/negro. Ela diz respeito ao fato de apenas o segundo elemento ser percebido  como “detentor” de uma raça. Como resultado dessa racialização unilateral, corpos que não são racializados são isentos da dor e opressão que tem início com a cor da pele. Como resultado dessa racialização unilateral, nem todas/os são lidas/os da mesma forma. Brancas/os, por exemplo, não são abordadas/os pelo ângulo racial. 

    Written on 21.09.2021 in Raça/Etnia Read more...
  • Como um 'robô-escritor de ensaios' está ecoando a voz do seu criador 

    Her (2013). Crédito: Warner Bros. Pictures release.

     

    "Um robô escreveu este artigo na íntegra. Você já está com medo, humano/a"? lê-se no título de um ensaio que foi publicado pelo The Guardian de forma provocadora. O gerador de linguagem GPT-3 do OpenAI foi utilizado para produzir o artigo, e acredita-se ser "surpreendentemente bom" (Heaven, 2020). O conteúdo do ensaio, contudo, pode nos dizer mais sobre os seres humanos que criaram o GPT-3 e os indivíduos que o instruíram para escrever o ensaio do que sobre o próprio gerador de linguagem. O mesmo se aplica às manchetes descaradamente enganosas da publicação. 

    Written on 08.09.2021 in Tecnologias Read more...
  • Gender anomie, Pabllo Vittar e Liniker: Minorias de gênero e corpos brasileiros

    Recentemente, li o artigo “Queering Gendering: Trans Epistemologies and the Disruption and Production of Gender Accomplishment Practices”, de Sonny Nordmarken, no qual é discutido, por meio de uma auto/etnografia de campo, em centenas de entrevistas informais e vinte entrevistas semi-estruturadas, os debates sobre “desfazer gênero” (undoing gender) e como os paradigmas moldam as  normas de atribuição de gênero. Nordmarken investiga as práticas interacionais, pronomes e as minorias de gênero, abordando a questão da anomia de gênero (gender anomie) sempre do ponto de vista estadunidense, como ele faz questão de frisar. Resolvi, então, pensar um pouco sobre anomia e minorias de gênero a partir de uma perspectiva brasileira e feminista interseccional, em diálogo com Nordmarken.

    Written on 23.08.2021 in Gênero e sexualidade Read more...
  • Entextualização em Conxt: Jan Blommaert manda a letra

    Transformar-se o tempo todo e manter-se o mesmo: este é um dos paradoxos humanos mais curiosos. Desde pelo menos a antiguidade, esse paradoxo é capturado na estética  escultural pela estátua bifronte de Jano, o “deus romano dos inícios e das transições” (TAYLOR, 20001, p. 1), que olha para frente e para trás, ou seja para o passado e para o futuro. Esse paradoxo é capturado também pela arquitetura na forma das portas, uma invenção tipicamente humana. Taylor sublinha que o nome da deidade romana pode ser explicado pela palavra latina ianus, que significa ‘porta’, e pela palavra sânscrita yana, que significa ‘movimento transicional’. Com efeito, Jano é o deus que nomeia o mês de janeiro, o período em que costumamos indicar o início de um novo ciclo: um limiar que olha para o passado e o futuro, e, portanto, para uma transição.

    Written on 11.08.2021 in Educação Read more...
  • Brasilidade em disputa na arena semiótica: o slogan e o samba

    “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
    Tem sangue retinto pisado
    Atrás do herói emoldurado
    Mulheres, tamoios, mulatos
    Eu quero um país que não está no retrato”
    (Samba de enredo da Mangueira, Carnaval de 2019
    Autoria: Danilo Firmino, Deivid Domênico, Mamá,
    Márcio Bola, Ronie Oliveira, Tomaz Miranda)

     

    O século XXI, sob os ecos da globalização, tem sido pautado pela intensificação da circulação dos mais variados tipos de textos: escritos, sonoros, visuais, audiovisuais, multimídia etc. Multiplicam-se as possibilidades de intercâmbios virtuais e dá-se  a consequente transposição de fronteiras físicas e culturais, o que leva a hibridizações e também a fricções, por conta do aumento da zona de contato entre pessoas de diferentes regiões, classes sociais, gênero, raça, sexualidade, idade, filiação político-partidária e, por conseguinte, de ideologias díspares.

    Written on 28.07.2021 in Política Nacional Read more...

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Há uma disparidade social quando se toma para análise o par binário branco/negro. Ela diz respeito ao fato de apenas o segundo elemento ser percebido  como “detentor” de uma raça. Como resultado dessa racialização unilateral, corpos que não são racializados são isentos da dor e opressão que tem início com a cor da pele. Como resultado dessa racialização unilateral, nem todas/os são lidas/os da mesma forma. Brancas/os, por exemplo, não são abordadas/os pelo ângulo racial. 

Her (2013). Crédito: Warner Bros. Pictures release.

 

"Um robô escreveu este artigo na íntegra. Você já está com medo, humano/a"? lê-se no título de um ensaio que foi publicado pelo The Guardian de forma provocadora. O gerador de linguagem GPT-3 do OpenAI foi utilizado para produzir o artigo, e acredita-se ser "surpreendentemente bom" (Heaven, 2020). O conteúdo do ensaio, contudo, pode nos dizer mais sobre os seres humanos que criaram o GPT-3 e os indivíduos que o instruíram para escrever o ensaio do que sobre o próprio gerador de linguagem. O mesmo se aplica às manchetes descaradamente enganosas da publicação. 

Recentemente, li o artigo “Queering Gendering: Trans Epistemologies and the Disruption and Production of Gender Accomplishment Practices”, de Sonny Nordmarken, no qual é discutido, por meio de uma auto/etnografia de campo, em centenas de entrevistas informais e vinte entrevistas semi-estruturadas, os debates sobre “desfazer gênero” (undoing gender) e como os paradigmas moldam as  normas de atribuição de gênero. Nordmarken investiga as práticas interacionais, pronomes e as minorias de gênero, abordando a questão da anomia de gênero (gender anomie) sempre do ponto de vista estadunidense, como ele faz questão de frisar. Resolvi, então, pensar um pouco sobre anomia e minorias de gênero a partir de uma perspectiva brasileira e feminista interseccional, em diálogo com Nordmarken.

Transformar-se o tempo todo e manter-se o mesmo: este é um dos paradoxos humanos mais curiosos. Desde pelo menos a antiguidade, esse paradoxo é capturado na estética  escultural pela estátua bifronte de Jano, o “deus romano dos inícios e das transições” (TAYLOR, 20001, p. 1), que olha para frente e para trás, ou seja para o passado e para o futuro. Esse paradoxo é capturado também pela arquitetura na forma das portas, uma invenção tipicamente humana. Taylor sublinha que o nome da deidade romana pode ser explicado pela palavra latina ianus, que significa ‘porta’, e pela palavra sânscrita yana, que significa ‘movimento transicional’. Com efeito, Jano é o deus que nomeia o mês de janeiro, o período em que costumamos indicar o início de um novo ciclo: um limiar que olha para o passado e o futuro, e, portanto, para uma transição.

“Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato”
(Samba de enredo da Mangueira, Carnaval de 2019
Autoria: Danilo Firmino, Deivid Domênico, Mamá,
Márcio Bola, Ronie Oliveira, Tomaz Miranda)

 

O século XXI, sob os ecos da globalização, tem sido pautado pela intensificação da circulação dos mais variados tipos de textos: escritos, sonoros, visuais, audiovisuais, multimídia etc. Multiplicam-se as possibilidades de intercâmbios virtuais e dá-se  a consequente transposição de fronteiras físicas e culturais, o que leva a hibridizações e também a fricções, por conta do aumento da zona de contato entre pessoas de diferentes regiões, classes sociais, gênero, raça, sexualidade, idade, filiação político-partidária e, por conseguinte, de ideologias díspares.

O cenário pavoroso da pandemia no Brasil, que estampou em nossos jornais, no dia 19/06, a ultrapassagem da marca de 500.000 mortos – com uma média móvel de mais de 2.000 mortos por dia e sem previsão de queda –, tem derrubado, semana após semana, os índices de aprovação do governo. Em pesquisa divulgada em 24/06, a aprovação havia caído para 24% enquanto a reprovação seguia em alta, se aproximando dos 50%. Os avanços da Comissão Parlamentar de Inquérito, conhecida como CPI da Pandemia ou CPI da COVID, têm permitido ao cidadão brasileiro tomar conhecimento das movimentações que estiveram por trás da recusa incessante de vacinas, do negacionismo frente às medidas de prevenção, da decisão de endossar tratamentos precoces sem comprovação científica assegurada, do deboche e do escárnio frente à dor de milhares de famílias.

É bem provável que o maior desafio dos anos pós-pandêmicos (se é que haverá pós) seja a irremediável solução do conflito entre o tempo da vida pública e o tempo da vida privada, que, neste momento, encontra-se encapsulada pela linguagem dos canais digitais da internet. A disputa entre as necessidades e vontades da atuação profissional, no e para o mundo externo, e as necessidades e vontades das funções domésticas são cada vez mais atravessadas pela dinâmica das lives e o aparato performativo do chamado "trabalho remoto". Se por um lado é preciso demonstrar insistentemente habilidades individuais e competências produtivas em plena “guerra pandêmica” em perfis das redes sociais a partir do ambiente doméstico, mesmo diante de um quadro político, econômico e sanitário caóticos, por outro, a casa tem se configurado também como o lugar da solidariedade, da resistência coletiva e da ressignificação do ser no mundo diante dessa invasão digital. Como diz Bachelard, a “casa natal” seria a dimensão da “profundidade extrema do devaneio (…) desse calor primeiro, dessa matéria bem temperada do paraíso material... ambiente que vivem os seres protetores”1. No entanto, agora, esta mesma casa encontra-se na radicalidade de tempos e lugares concorrentes sob o princípio operacional de uma nova linguagem em nossas rotinas.

Um ano e, até então, 270 mil mortes depois, o presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que o uso de máscaras causaria “dor de cabeça” entre outros “efeitos colaterais”, apareceu usando máscara em uma cerimônia, bem como as demais autoridades do governo, ao contrário do habitual. À exceção dos últimos 36 eventos oficiais, em que o presidente apareceu sem fazer uso de nenhuma medida de prevenção contra a disseminação da COVID-19, essa aparição pública, que sinaliza uma tentativa de reposicionamento da atitude negacionista do governo perante à pandemia, ocorre em 10/03/2021. Essa poderia ser uma data qualquer, não fizessem apenas dois dias da decisão do STF que anulou as acusações que levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 580 dias de prisão; e não tivessem se passado cerca de 4 horas de suas declarações em cadeia nacional, as quais se tornariam símbolo da reentrada do petista na cena política brasileira.

Em 31 de dezembro de 2018, o Ministério da Saúde lançou uma cartilha1 em que foram elencados os grupos de maior vulnerabilidade ao suicídio entre os jovens brasileiros. Os dados apresentados são alarmantes, porém não surpreendentes. Como em tudo o que se refere à situação da população negra no país do mito da democracia racial, a pesquisa aponta negras e negros liderando a triste estatística de mortes por suicídio. Em 2021, já há um ano em meio ao enfrentamento da pandemia de Coronavírus, tal realidade apresentada em 2018 não poderia ser mais cruel. A juventude em geral e a negra em particular vivem o aprofundamento da precarização do trabalho. Em consequência, há um movimento escalar de desesperança que caminha a passos largos em todo o mundo. A falta de perspectiva flui em ondas sufocantes, avolumadas por extremistas e supremacistas brancos. 

A pandemia de Covid-19 tem nos forçado a refletir sobre uma série de sentidos sobre sociabilidade e saúde, assim como sobre o papel da comunicação nessa interseção. Temos vivido novas formas de contato como, por exemplo, a proximidade social, vivenciada por muitas pessoas por meio das novas Tecnologias de Informação e Comunicação. As aglomerações ainda acontecem, mas algumas pessoas preferem ou se isolar completamente, ou encontrar apenas um número seleto de amigos e parentes, evitando o toque nesses encontros. Nesse contexto, os discursos que circulam sobre a saúde encontram-se enredados em uma teia de suposições, cujo exemplo prototípico é o de que a cloroquina, fármaco usado para o tratamento do lúpus, uma doença auto-imune, também serviria como recurso terapêutico contra uma infecção viral.

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