• Efeito Lula, comunicabilidade e outros efeitos

    Um ano e, até então, 270 mil mortes depois, o presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que o uso de máscaras causaria “dor de cabeça” entre outros “efeitos colaterais”, apareceu usando máscara em uma cerimônia, bem como as demais autoridades do governo, ao contrário do habitual. À exceção dos últimos 36 eventos oficiais, em que o presidente apareceu sem fazer uso de nenhuma medida de prevenção contra a disseminação da COVID-19, essa aparição pública, que sinaliza uma tentativa de reposicionamento da atitude negacionista do governo perante à pandemia, ocorre em 10/03/2021. Essa poderia ser uma data qualquer, não fizessem apenas dois dias da decisão do STF que anulou as acusações que levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 580 dias de prisão; e não tivessem se passado cerca de 4 horas de suas declarações em cadeia nacional, as quais se tornariam símbolo da reentrada do petista na cena política brasileira.

    Written on 14.06.2021 in Política Nacional Read more...
  • Sofrimento acadêmico na pandemia e suicídio da população negra

    Em 31 de dezembro de 2018, o Ministério da Saúde lançou uma cartilha1 em que foram elencados os grupos de maior vulnerabilidade ao suicídio entre os jovens brasileiros. Os dados apresentados são alarmantes, porém não surpreendentes. Como em tudo o que se refere à situação da população negra no país do mito da democracia racial, a pesquisa aponta negras e negros liderando a triste estatística de mortes por suicídio. Em 2021, já há um ano em meio ao enfrentamento da pandemia de Coronavírus, tal realidade apresentada em 2018 não poderia ser mais cruel. A juventude em geral e a negra em particular vivem o aprofundamento da precarização do trabalho. Em consequência, há um movimento escalar de desesperança que caminha a passos largos em todo o mundo. A falta de perspectiva flui em ondas sufocantes, avolumadas por extremistas e supremacistas brancos. 

    Written on 01.06.2021 in Educação Read more...
  • 'O vírus chinês': uma análise de uma pandemia textual

    A pandemia de Covid-19 tem nos forçado a refletir sobre uma série de sentidos sobre sociabilidade e saúde, assim como sobre o papel da comunicação nessa interseção. Temos vivido novas formas de contato como, por exemplo, a proximidade social, vivenciada por muitas pessoas por meio das novas Tecnologias de Informação e Comunicação. As aglomerações ainda acontecem, mas algumas pessoas preferem ou se isolar completamente, ou encontrar apenas um número seleto de amigos e parentes, evitando o toque nesses encontros. Nesse contexto, os discursos que circulam sobre a saúde encontram-se enredados em uma teia de suposições, cujo exemplo prototípico é o de que a cloroquina, fármaco usado para o tratamento do lúpus, uma doença auto-imune, também serviria como recurso terapêutico contra uma infecção viral.

    Written on 18.05.2021 in Cultura Read more...
  • Bifobia e disciplinas do corpo no BBB21

    Lucas Koka Penteado e Gilberto protagonizaram o primeiro beijo gay do Big Brother Brasil (Foto: Reprodução TV Globo)

    Depois do recorde de audiência em 2020 e de uma edição cheia de polêmicas, a expectativa para a estreia do Big Brother Brasil 2021 estava alta neste verão. Entre famosos (Camarote) e anônimos (Pipoca), os participantes finalmente foram revelados e esta passa a ser a edição do programa de mais longa duração: 100 dias de confinamento na casa mais vigiada do país.

    Written on 04.05.2021 in Cultura Read more...
  • Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!
    Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!

    Ah! O Brasil no século XIX! Quem não adora pensar sobre a vida nessa época? No Rio de Janeiro, em 1808, a família real portuguesa aportava e trazia inúmeras mudanças para a vida na cidade. Mais tarde, em 1822, um português declarou a independência brasileira em relação a Portugal. No Maranhão, mais para a metade do século, Maria Firmina dos Reis escrevia poemas, contos e romances.

    Written on 21.04.2021 in Cultura Read more...
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O novo homem do presidente e a homofobia cotidiana

por Carlos Bem Gonçalves (PIPGLA/UFRJ) 23.12.2020

No mês de junho, em que se comemora o dia do orgulho de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), a capa do caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo protagonizou uma polêmica pela escolha da foto e do título “O novo homem do Presidente” para noticiar a nomeação de Mário Frias no comando da já tumultuada Secretaria Nacional de Cultura do Governo Federal. A foto do ex-ator do folhetim juvenil “Malhação”, com parte das nádegas à mostra, somada ao título da notícia gerou uma onda de protestos de entidades e defensores dos direitos LGBT que acusaram o jornal de ter produzido conteúdo homofóbico e moralista

Por outro lado, houve quem defendesse que tal narrativa se tratava de deboche e ironia como formas de crítica ao perfil conservador e aos discursos homofóbicos do Presidente. O editor da Folha disse que “...é evidente que há humor e ironia na capa da Ilustrada...”, ainda que o Manual de Redação do jornal desaconselhe o uso da ironia na produção jornalística. Isso porque tal figura de linguagem produz interpretações que os leitores podem tomar em sentido literal, colocando por terra os ideais de ética e das boas práticas do jornalismo, sempre guiados pelo respeito à dignidade da pessoa humana. A escolha do humor e da ironia colocou em questionamento o modo de fazer jornalismo e abriu caminho para que possamos refletir criticamente sobre a relação da linguagem com a comunicação. Uma das interpretações que a capa da Folha gerou nos receptores foi a banalização da homofobia. 

Os debates sobre a capa da Folha indicam que a homofobia funciona de forma semelhante ao que Deborah Cameron chama de  sexismo cotidiano. Ela explica que há, pelo menos, dois tipos de sexismo: um explícito, escandaloso, que é facilmente percebido (o feminicídio é um exemplo) e outro menos óbvio que, de tão naturalizado, passa despercebido, mas nem por isso é menos perigoso. A este segundo tipo, Cameron dá o nome de sexismo cotidiano.  Ela afirma que ele está embutido no uso da linguagem e, por isso, é uma prática comum, imperceptível e tão natural que quando denunciado provoca acusações de vitimização e, aqui no Brasil, do já famoso “mi mi mi”. A linguista explica que o sexismo cotidiano funciona mais ou menos como um tipo de comunicação fática, cuja função não é trocar informações, mas sim estabelecer vínculos sociais entre falantes. Quando uma vizinha no elevador nos diz “que dia lindo!”, concordamos instantaneamente. Caso contrário, seremos vistos como arrogantes ou socialmente inaptos. O mesmo acontece com discursos que depreciam as mulheres. Por essa razão, Cameron analisa que os praticantes do sexismo cotidiano se mostram surpresos com a reação das feministas - já que não imaginam que alguém poderia discordar daqueles discursos. 

Pela linguagem, o sexismo é minimizado e se torna tão normal quanto um “bom dia”. Este é um processo que pode ser entendido pelo que o linguista belga Jan Blommaert chama de ordens de indexicalidade. Quando falamos, (re) dimensionamos o mundo ao nosso redor através de medidas, analogias e metáforas de forma que o tamanho e a importância de certos fenômenos dependem da perspectiva de quem fala.      As ordens de indexicalidade, então, são os modos como os discursos, os valores e as convenções sociais fixam significados e os hierarquizam numa espécie de escala valorativa, mas também binária: certo x errado; bom x mau; heterossexual x homossexual. Por isso mesmo machistas e homofóbicos se mostram surpresos quando denunciamos que suas falas (“mulheres falam demais!”, “máscara é coisa de viadinho!”) amplificam práticas de violência. Isto se torna uma batalha em torno da naturalização e desnaturalização do sexismo e da homofobia colocando em debate a conduta ética entre o que é considerado certo ou errado, entre o que pode ser considerado como discurso homofóbico e não homofóbico. 

Interessante observar que quando o assunto abordado são as questões de gênero e sexualidade essas ordens de indexicalidade constroem hierarquias de normalidade e desvio. Talvez seja por isso que o editor da Folha tenha tranquilamente negado as acusações de homofobia. Afinal, para ele, o que há na capa  é só  humor e ironia. Nessa fala, o editor banaliza a ofensa à homossexualidade e os processos de violência que humor e ironia possam gerar nas práticas cotidianas, naturalizando-as. Em outras palavras, o que há na capa não é intolerância, mas sim uma brincadeira inofensiva. Ao redimensionar os sentidos e contestar as acusações de homofobia, a Folha ironiza a homossexualidade e, ao minimizar sua homofobia, contribui para o reforço da discriminação e violências contra pessoas LGBT.

Esses discursos apresentam aspectos indiscutíveis de hierarquia, poder e desigualdade na produção dos significados, deixando explícito o sistema de valores de positivação e negativação, assim como de legitimidade e não legitimidade. A filósofa estadunidense, Judith Butler, na sua teoria da performatividade, argumenta que as identidades - sexuais e de gênero, por exemplo - não são fixas, mas construídas na cultura, por meio da “estilização repetida do corpo”, de forma que essas performances produzem uma cadeia de repetições que naturalizam formas de ser e estar no mundo e se apegam a um poder moral que se fixa em torno dos significados.  Dessa forma, pensar a sexualidade nos remete a um ideal de naturalização da heterossexualidade, que é compulsória, como um sedimento de camadas que dão sentido à vida em sociedade através de hierarquias – no topo dessa escala estão a heterossexualidade, a cisgeneridade e a branquitude. Esse pensamento hierarquiza, naturaliza e autoriza o exercício de posicionamentos, como ironizar a nomeação para um cargo de alto escalão - Secretário Nacional de Cultura - o que possibilita não compreender esse discurso como um insulto à homossexualidade. 

A homofobia cotidiana se torna um efeito desse processo através de ordens de indexicalidade na qual o insulto à homossexualidade é minimizado como um acontecimento quase imperceptível. Ouso afirmar que muitas pessoas que lacram nas redes sociais em textões, memes e correntes anti-homofobia compartilharam a capa da Folha sem perceber que estavam contribuindo para a naturalização de discursos homofóbicos como o exemplo, abaixo. 

A homofobia cotidiana se naturaliza numa mistura de sentimentos de vingança ao macho heterossexual, autoritário, arrogante, ainda que esse deboche seja uma forma de repetir o insulto, a ofensa, a humilhação e a hostilidade aos homens que fazem sexo com outros homens. 

A capa da Folha colabora na produção de sentidos que supervalorizam a heterossexualidade e inferiorizam a homossexualidade num constante processo social de hierarquização e insultos. Isso se dá na escolha da foto do ex-ator com as nádegas de fora, numa posição que sugere um homem passivo, aquele que é penetrado por outro homem numa relação sexual, invocando sentimentos de nojo e rejeição à nomeação do ex-ator, por uma suposta ação de passividade ao chefe macho, soberano, autoritário. A imagem do ex-ator sugere a posição de um homem fraco que obedecerá às ordens do homem forte e soberano - o Presidente - assim como faz, supostamente, um homem gay passivo na relação sexual, segundo o imaginário social. 

O título “O novo homem do Presidente” é representativo da homofobia cotidiana da Folha ao ironizar a prática sexual entre dois homens, apontando que ser homem de outro homem é característica que diminui a legitimidade para ocupação de um cargo político de alto escalão no Governo. A forma como a nudez do corpo masculino é apresentada contribui para significar a homossexualidade como inferior à heterossexualidade, ou seja, seria a comprovação de que o secretário não estaria apto a assumir a pasta em decorrência de suas práticas profissionais do passado, mas também porque estaria num lugar de passividade, característica atribuída aos homens gays, dado o senso comum de significar essa identidade como pertencente a homens que são penetrados na prática sexual. Tais práticas colocariam em dúvida sua heterossexualidade e sua virilidade, aspectos indispensáveis para compor um governo marcadamente cis-hetero masculino, visto que boa parte do alto escalão do governo federal é composta por militares homens, brancos e heterossexuais, características fundamentais que comumente são tidas como atributos de legitimidade para compor o Bolsonarismo. Os inúmeros discursos do Presidente exemplificam a homofobia cotidiana. Em plena pandemia do coronavírus, quando o uso de máscara é uma das mais importantes medidas de prevenção, o mandatário teria dito que usar máscara é coisa de viado. Noutro momento, quando questionado sobre as denúncias de “rachadinha” envolvendo o gabinete do seu filho, Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual no Rio de Janeiro, respondeu ao jornalista: “você tem uma cara de homossexual terrível.” 

A homofobia foi tipificada como crime no Brasil apenas em 2019. Ainda assim, as falas do presidente apontam que a banalização da homofobia se tornou um modus operandi para governar. Eu diria até que a homofobia se tornou uma estratégia de governo. Debochar, insultar, ofender e criar uma ideia de superioridade moral, política e sexual em relação aos homossexuais dimensionam a heterossexualidade como um modelo legítimo e normal de sexualidade e, portanto, ganha eco, audiência, likes, movimentam bolhas algorítmicas e os compartilhamentos em rede. Além disso, a homofobia cotidiana possibilita o trânsito de significados que aglutinam pessoas em torno de projetos políticos que realizam um ativismo contra o avanço dos direitos LGBT no Brasil. A prática sedimenta camadas de ódio, de ideologias e de práticas sociais violentas que, se antes eram naturais, agora são contestadas, seja pelos  por movimentos organizados, seja por instituições.

Curiosamente, ao adotar uma suposta ironia para criticar o atual governo, o que a capa da Folha faz é contribuir para a distribuição de discursos que fomentam a homofobia cotidiana, ainda que essa contribuição não tenha se dado de forma intencional. Essa suposta inconsciência na produção do discurso midiático não autoriza que os jornalistas continuem com práticas que fomentam e naturalizam violências, como é o caso da homofobia cotidiana e do sexismo cotidiano; pelo contrário, é um chamado ético ao exercício da profissão, nada que já não esteja sedimentado no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Considerando que profissionais da mídia - e me incluo nesse chamado já que também sou jornalista - são pessoas pretensamente críticas, não deveríamos continuar produzindo e disseminando discursos irrefletidamente. Talvez nossa pergunta não seja se a capa foi homofóbica, mas, certamente, se o uso do humor e ironia para criticar a composição do Governo é uma opção ética, de boas práticas jornalísticas e, por fim, se vamos combater a homofobia, sendo cotidianamente homofóbicos. Afinal, quem com homofobia fere - o presidente - com homofobia será ferido?

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