• Bifobia e disciplinas do corpo no BBB21

    Lucas Koka Penteado e Gilberto protagonizaram o primeiro beijo gay do Big Brother Brasil (Foto: Reprodução TV Globo)

    Depois do recorde de audiência em 2020 e de uma edição cheia de polêmicas, a expectativa para a estreia do Big Brother Brasil 2021 estava alta neste verão. Entre famosos (Camarote) e anônimos (Pipoca), os participantes finalmente foram revelados e esta passa a ser a edição do programa de mais longa duração: 100 dias de confinamento na casa mais vigiada do país.

    Written on 04.05.2021 in Cultura Read more...
  • Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!
    Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!

    Ah! O Brasil no século XIX! Quem não adora pensar sobre a vida nessa época? No Rio de Janeiro, em 1808, a família real portuguesa aportava e trazia inúmeras mudanças para a vida na cidade. Mais tarde, em 1822, um português declarou a independência brasileira em relação a Portugal. No Maranhão, mais para a metade do século, Maria Firmina dos Reis escrevia poemas, contos e romances.

    Written on 21.04.2021 in Cultura Read more...
  • A captura dos Friedman e BBB – antigas tragédias em novas mídias

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    Pôster do filme Capturing the Friedmans ©Andrew Jarecki

    Na Captura dos Friedman, documentário realizado pelo diretor Andrew Jarecki, e BBB21, reality show transmitido pela Rede Globo, dizem muito sobre algumas indagações de nossos tempos. Na película, o enredo e estrutura são relativamente simples. Um professor de informática, Arnold Friedman, e um de seus filhos, Jesse, são acusados de envolvimento em práticas pedófilas, a partir da interceptação, por parte da polícia, de revistas pornográficas em sua casa. Após um período de ampla investigação policial, os dois são presos, julgados e condenados a vários anos de prisão.

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  • Linguagem neutra: usar ou não usar, eis uma das questões

    WhatsApp Image 2021 03 23 at 8.08.31 PMDiscussões em torno da linguagem neutra vêm sendo cada vez mais travadas. Entre meados de novembro e o início de dezembro de 2020, ao menos cinco Projetos de Lei (PL) contrários ao uso e ao ensino da linguagem neutra foram apresentados ao Poder Legislativo — PL 2013/2020, PL  3325/2020, PL 5248/2020, PL 5198/2020 e PL 5385/2020. A linguagem neutra é recorrentemente tematizada também no âmbito das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, por exemplo. Em relação a esta última, no dia seis de outubro de 2020 foi transmitida uma live entre a youtuber Antônia Fontenelle e a escritora e professora de língua portuguesa, Cíntia Chagas. De acordo com a youtuber, o intuito de discutir sobre linguagem neutra em seu canal seria o de “abrir os olhos das pessoas” para a “barbárie”. Para tanto, Cíntia Chagas, sua convidada, lançou mão de um argumento comumente apresentado por quem se opõe  à linguagem neutra: “No latim, a gente tinha as palavras femininas, masculinas e neutras. Quando o neutro caiu, o neutro caiu para dar lugar apenas ao masculino. O masculino, ele tem essa função do neutro”, afirmou. Nesse sentido, a professora ainda complementou sua fala e caracterizou o uso da expressão ‘todos e todas’ como “burrice”, pois somente ‘todos’ já incluiria ambos os gêneros masculino e feminino.  Logo, de acordo com tais afirmações, não haveria necessidade de ensinar e utilizar uma linguagem neutra, pois a língua portuguesa já possui recursos de neutralização, como o  uso do masculino genérico. 

    Written on 23.03.2021 in Gênero e sexualidade Read more...
  • O tempo narrativo, o general e as memórias de nossos tristes futuros

    Sempre fui fascinado pela questão do tempo, de como ele se manifesta em nossa consciência e de como nós narramos as nossas experiências ancoradas na percepção que nós temos desse fenômeno. Segundo Agostinho de Hipona (354-430), mais conhecido como Santo Agostinho, a dimensão temporal é parte exclusiva da condição humana, sendo vivenciada em três camadas interconectadas: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras. Como estudioso da linguagem, tendo a compreender que a nossa relação com essas dimensões temporais se dá, principalmente, através do discurso e, mais particularmente, através do discurso narrativo. Ao realizarmos as nossas performances discursivas, a nossa percepção do tempo se restringe ou se expande, dependendo de fatores tais como o nosso contexto social; aquilo que estamos vivendo; nossas emoções (prazer, dor, alegria, tristeza, indiferença etc.); as respostas das pessoas à narrativa que estamos produzindo; as memórias que elas evocam; e, as avaliações que fazemos do mundo e das pessoas ao nosso redor. Por todas essas e outras questões, uma apreensão objetiva do tempo, mesmo no plano narrativo, seria, senão impossível, sempre elusiva e dependente de muitos fatores.

    Written on 08.03.2021 in Política Nacional Read more...

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Linguagem neutra: usar ou não usar, eis uma das questões

por Alessa Francine Silva (PIPGLA/UFRJ) 23.03.2021

WhatsApp Image 2021 03 23 at 8.08.31 PMDiscussões em torno da linguagem neutra vêm sendo cada vez mais travadas. Entre meados de novembro e o início de dezembro de 2020, ao menos cinco Projetos de Lei (PL) contrários ao uso e ao ensino da linguagem neutra foram apresentados ao Poder Legislativo — PL 2013/2020, PL  3325/2020, PL 5248/2020, PL 5198/2020 e PL 5385/2020. A linguagem neutra é recorrentemente tematizada também no âmbito das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, por exemplo. Em relação a esta última, no dia seis de outubro de 2020 foi transmitida uma live entre a youtuber Antônia Fontenelle e a escritora e professora de língua portuguesa, Cíntia Chagas. De acordo com a youtuber, o intuito de discutir sobre linguagem neutra em seu canal seria o de “abrir os olhos das pessoas” para a “barbárie”. Para tanto, Cíntia Chagas, sua convidada, lançou mão de um argumento comumente apresentado por quem se opõe  à linguagem neutra: “No latim, a gente tinha as palavras femininas, masculinas e neutras. Quando o neutro caiu, o neutro caiu para dar lugar apenas ao masculino. O masculino, ele tem essa função do neutro”, afirmou. Nesse sentido, a professora ainda complementou sua fala e caracterizou o uso da expressão ‘todos e todas’ como “burrice”, pois somente ‘todos’ já incluiria ambos os gêneros masculino e feminino.  Logo, de acordo com tais afirmações, não haveria necessidade de ensinar e utilizar uma linguagem neutra, pois a língua portuguesa já possui recursos de neutralização, como o  uso do masculino genérico. 

O argumento de que a forma gramatical masculina é neutra estabelece relação com o conceito de marcação. Em seu livro Estrutura da Língua Portuguesa (1970), o reconhecido linguista Joaquim Mattoso Câmara Júnior descreve, como sugere o nome da obra, a estrutura da língua em seus diversos níveis, como o fonológico e o morfológico. No que diz respeito ao gênero gramatical, o autor comenta que “[...] o masculino e o singular se caracterizam pela ausência das marcas de feminino e de plural [...].  Em outros termos, pode-se dizer que ambos são assinalados por um morfema gramatical zero”. Sendo assim, o substantivo meninos, por exemplo, é marcado pelo morfema -s, que indica a forma plural. Logo, a forma singular é tida como não-marcada, pois é representada pelo morfema zero: meninoØ. Com base neste exemplo, nota-se que o morfema zero consiste na ausência de desinências, ou seja, marcas que indicam flexões de gênero, número, pessoa etc. 

O mesmo raciocínio é empregado em relação às formas feminina e masculina, de modo que o feminino é marcado pelo morfema -a e o masculino, zero. A forma masculina é, portanto, compreendida como não-marcada. Nesse sentido, Câmara Júnior acrescenta o seguinte: “O mais que podemos dizer, porém, em referência ao gênero, do ponto de vista semântico, é que o masculino é uma forma geral, não-marcada, e o feminino indica uma especialização qualquer”. Enquanto a primeira citação é referente ao âmbito morfológico, a segunda diz respeito ao semântico – tais âmbitos são referentes, respectivamente, ao processo de formação de palavras e ao sentido. Em ambos os níveis, o masculino é tido como não-marcado. Especialmente no nível semântico, o feminino é definido a partir de e em relação ao masculino. 

Em relação ao conceito de marcação, a linguista e professora Ann Coady observa que sua motivação não é puramente linguística. Logo, Coady afirma que formas compreendidas como não-marcadas e genéricas têm relação com a importância dada a determinado grupo, bem como o poder que o mesmo pode exercer sobre outro. Assim, uma vez que formas masculinas são frequentemente tidas como não-marcadas na língua portuguesa, é possível fazer uma leitura de tal situação a partir das relações de poder estabelecidas entre homens e mulheres. Ainda de acordo com Coady, “a forma não-marcada representa a forma socialmente mais valorosa, ou simplesmente a encontrada com mais frequência, seja no masculino ou feminino” (Tradução nossa). A partir das contribuições de Coady, é possível questionar a suposta neutralidade da forma gramatical masculina defendida por grupos contrários à linguagem neutra, uma vez que o nível linguístico estabelece relação com o social.   

Em sua conversa com Antônia Fontenelle, após defender a suposta neutralidade de formas masculinas na língua portuguesa, Cíntia Chagas acrescentou que “na língua portuguesa, o masculino é também neutro, ele já abarca o feminino. Isso é regra, as pessoas não podem simplesmente mudar regras”. Novamente, a professora apresenta um argumento comumente utilizado por pessoas contrárias à linguagem neutra, isto é, que regras gramaticais não devem, nem podem, ser alteradas. É possível analisar a afirmação de Cíntia Chagas a partir do que Anne Curzan, linguista estadunidense, denomina falácias etimológicas (etymological fallacies). De acordo com a autora, tais falácias defendem a existência de “significados corretos” e essenciais, como se a língua fosse imutável e, além disso, dotada de uma suposta verdade. Assim, falácias etimológicas são frequentemente utilizadas como justificativas contrárias a mudanças linguísticas. Em relação à linguagem neutra, uma falácia etimológica comumente utilizada consiste em afirmar que o gênero gramatical masculino da língua portuguesa advém do gênero neutro do latim. Por conseguinte, argumenta-se que o gênero masculino é também neutro devido a questões etimológicas, isto é, relacionadas à origem histórica das palavras. Curzan, por outro lado, argumenta que o sentido das palavras pode passar por modificações de acordo com as crenças e os usos de falantes. Sendo assim, ao compreenderem a forma masculina como a marcação de um grupo específico e não genérico — ou seja, homens —, comunidades linguísticas marginalizadas, como a de pessoas não-binárias, por exemplo, propõem outros usos tidos como mais inclusivos, como a linguagem neutra. 

Para além de uma falácia etimológica, o argumento apresentado por Cíntia Chagas em sua conversa com Antônia Fontenelle corrobora também a ideia de que a língua deve ser regulada por instituições semelhantes à Academia Brasileira de Letras e por gramáticos, de modo que caberia a falantes o papel de respeitar a norma culta contida em manuais. Tanto Coady como Curzan apontam que o uso da história da língua como justificativa para o sistema linguístico contemporâneo naturaliza aspectos socialmente construídos, como o valor genérico da forma masculina. Além disso, vale ressaltar que a  própria história da língua é, em si, permeada por ideologias linguísticas, uma vez que instituições hegemônicas são responsáveis por descrever e prescrever regras de usos linguísticos tomando como base origens etimológicas. Ao levar em conta todas essas questões, os seguintes questionamentos vêm à tona: Quem define o que é ‘certo’ e o que é ‘errado’ na língua? Quais fatores motivam tais classificações? E quais ideologias estão envolvidas nesse processo? Como falantes, não podemos questionar usos hegemônicos?

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