• “Por quê não usar capacete?” A culpabilização da vítima nos deslocamentos cotidianos

    No dia 08 de novembro de 2020, Marina Kohler Harkot foi atropelada e morta enquanto pedalava para sua casa na cidade de São Paulo. Marina tinha 28 anos. Cursava doutorado na USP, onde desenvolvia pesquisa sobre mobilidade urbana. Antes de sua morte precoce, nossas trajetórias acadêmicas se cruzaram apenas uma vez, no transcorrer de um seminário transdisciplinar, do qual fui uma das idealizadoras. A fim de participar, Marina se deslocou da cidade de São Paulo para o Rio de Janeiro e cativou as demais participantes com sua verdadeira vontade de fortalecer uma rede para além daquele mundo estritamente acadêmico. Para a jovem pesquisadora, aquilo não representava apenas mais um certificado, ou item no currículo lattes. Apesar de pertencer a campos de saber convencionalmente isolados, era nítido que compartilhávamos um ideal: a construção de cidades mais humanizadas - para a qual a própria vivência em cima da bicicleta era indissociável de qualquer reflexão acadêmica. Ansiava pela possibilidade de colaborações futuras. A pesquisa de Marina foi brutalmente interrompida, assim como a vida dela. Este curto texto se insere na busca da qual a doutoranda fazia parte, ao lançar um olhar crítico para a violência de que ela mesma foi vítima, buscando gerar conhecimento sobre sua dimensão discursiva, muitas vezes negligenciada pela pesquisa em Estudos da Linguagem.

    Written on 16.11.2021 in Cultura Read more...
  • Chaves é melhor do que Friends
         
     

    A pichação possui registros históricos. Ela aparece nas paredes de Pompeia, cidade destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79. Com a popularização do aerossol, após a Segunda Guerra Mundial, a pichação ganha agilidade com a utilização do spray, amplamente manuseado na revolta estudantil de 1968 em Paris. No Brasil, o primeiro registro de pichação como arte foi o emblemático “Abaixo a Ditadura”. Era o começo da street art brasileira. Assim, a pichação política nasceu no meio universitário nacional, por meio de inscrições simples, uma vez que demandavam velocidade para escapar da repressão policial. Com o passar do tempo, as inscrições foram difundidas no meio urbano, fazendo surgir pichações não só em muros, mas em construções públicas, viadutos e monumentos. Nenhuma das pichações vinha ou vem assinada, sendo sua característica proeminente apenas a ideia de contrariedade ao regime.

    Written on 02.11.2021 in Cultura Read more...
  • Mãe Bá e os privilégios da branquitude

    Mãe Bá morreu no dia 11 de fevereiro de 2020. Era assim como eu chamava a minha segunda mãe. Ela faleceu antes que a pandemia nos tomasse de assalto. Por seu estado de saúde frágil, começou a usar máscara bem antes de nós: tinha a imunidade baixa e qualquer resfriado poderia complicar muito a sua situação. Estava internada em um bom hospital e fazia tratamento em uma das melhores clínicas oncológicas do Rio de Janeiro, porém, nada disso foi suficiente e ela terminaria dando adeus a este plano da existência. Perdeu a batalha para um tipo raro de leucemia. Já tinha tido câncer de mama há dez anos e pensávamos que se havia livrado de um rebrote. Infelizmente, estávamos equivocados. Só agora, um ano e meio depois, consigo me manifestar sobre o assunto. Talvez porque, apesar de sermos seres de linguagem, quando tomados por uma dor tão grande como a perda de uma pessoa amada, nos vejamos incapacitados de produzir entendimento sobre a experiência de sofrimento. 

    Written on 19.10.2021 in Raça/Etnia Read more...
  • PALAVRAS DE LUTA / LUTA PELAS PALAVRAS
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    Você lembra do ‘problema sem nome’ sobre o qual nos falou Betty Friedan no livro ‘A mística feminina’? Lembra de Gloria Steinem dizendo que nos anos 1960 ninguém falava sobre assédio sexual – não porque não existia, mas porque era simplesmente ‘um fato da vida’? Dar nomes às experiências de opressão vividas por mulheres sempre foi uma tarefa política importante. Embora não solucione esses problemas, o ato de nomear os coloca na berlinda e faz com que seja mais fácil reconhecê-los, analisá-los e combatê-los.

    Written on 04.10.2021 in Gênero e sexualidade Read more...
  • Fragilidade branca no Instagram
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    Há uma disparidade social quando se toma para análise o par binário branco/negro. Ela diz respeito ao fato de apenas o segundo elemento ser percebido  como “detentor” de uma raça. Como resultado dessa racialização unilateral, corpos que não são racializados são isentos da dor e opressão que tem início com a cor da pele. Como resultado dessa racialização unilateral, nem todas/os são lidas/os da mesma forma. Brancas/os, por exemplo, não são abordadas/os pelo ângulo racial. 

    Written on 21.09.2021 in Raça/Etnia Read more...

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Linguagem neutra: usar ou não usar, eis uma das questões

por Alessa Francine Silva (PIPGLA/UFRJ) 23.03.2021

WhatsApp Image 2021 03 23 at 8.08.31 PMDiscussões em torno da linguagem neutra vêm sendo cada vez mais travadas. Entre meados de novembro e o início de dezembro de 2020, ao menos cinco Projetos de Lei (PL) contrários ao uso e ao ensino da linguagem neutra foram apresentados ao Poder Legislativo — PL 2013/2020, PL  3325/2020, PL 5248/2020, PL 5198/2020 e PL 5385/2020. A linguagem neutra é recorrentemente tematizada também no âmbito das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, por exemplo. Em relação a esta última, no dia seis de outubro de 2020 foi transmitida uma live entre a youtuber Antônia Fontenelle e a escritora e professora de língua portuguesa, Cíntia Chagas. De acordo com a youtuber, o intuito de discutir sobre linguagem neutra em seu canal seria o de “abrir os olhos das pessoas” para a “barbárie”. Para tanto, Cíntia Chagas, sua convidada, lançou mão de um argumento comumente apresentado por quem se opõe  à linguagem neutra: “No latim, a gente tinha as palavras femininas, masculinas e neutras. Quando o neutro caiu, o neutro caiu para dar lugar apenas ao masculino. O masculino, ele tem essa função do neutro”, afirmou. Nesse sentido, a professora ainda complementou sua fala e caracterizou o uso da expressão ‘todos e todas’ como “burrice”, pois somente ‘todos’ já incluiria ambos os gêneros masculino e feminino.  Logo, de acordo com tais afirmações, não haveria necessidade de ensinar e utilizar uma linguagem neutra, pois a língua portuguesa já possui recursos de neutralização, como o  uso do masculino genérico. 

O argumento de que a forma gramatical masculina é neutra estabelece relação com o conceito de marcação. Em seu livro Estrutura da Língua Portuguesa (1970), o reconhecido linguista Joaquim Mattoso Câmara Júnior descreve, como sugere o nome da obra, a estrutura da língua em seus diversos níveis, como o fonológico e o morfológico. No que diz respeito ao gênero gramatical, o autor comenta que “[...] o masculino e o singular se caracterizam pela ausência das marcas de feminino e de plural [...].  Em outros termos, pode-se dizer que ambos são assinalados por um morfema gramatical zero”. Sendo assim, o substantivo meninos, por exemplo, é marcado pelo morfema -s, que indica a forma plural. Logo, a forma singular é tida como não-marcada, pois é representada pelo morfema zero: meninoØ. Com base neste exemplo, nota-se que o morfema zero consiste na ausência de desinências, ou seja, marcas que indicam flexões de gênero, número, pessoa etc. 

O mesmo raciocínio é empregado em relação às formas feminina e masculina, de modo que o feminino é marcado pelo morfema -a e o masculino, zero. A forma masculina é, portanto, compreendida como não-marcada. Nesse sentido, Câmara Júnior acrescenta o seguinte: “O mais que podemos dizer, porém, em referência ao gênero, do ponto de vista semântico, é que o masculino é uma forma geral, não-marcada, e o feminino indica uma especialização qualquer”. Enquanto a primeira citação é referente ao âmbito morfológico, a segunda diz respeito ao semântico – tais âmbitos são referentes, respectivamente, ao processo de formação de palavras e ao sentido. Em ambos os níveis, o masculino é tido como não-marcado. Especialmente no nível semântico, o feminino é definido a partir de e em relação ao masculino. 

Em relação ao conceito de marcação, a linguista e professora Ann Coady observa que sua motivação não é puramente linguística. Logo, Coady afirma que formas compreendidas como não-marcadas e genéricas têm relação com a importância dada a determinado grupo, bem como o poder que o mesmo pode exercer sobre outro. Assim, uma vez que formas masculinas são frequentemente tidas como não-marcadas na língua portuguesa, é possível fazer uma leitura de tal situação a partir das relações de poder estabelecidas entre homens e mulheres. Ainda de acordo com Coady, “a forma não-marcada representa a forma socialmente mais valorosa, ou simplesmente a encontrada com mais frequência, seja no masculino ou feminino” (Tradução nossa). A partir das contribuições de Coady, é possível questionar a suposta neutralidade da forma gramatical masculina defendida por grupos contrários à linguagem neutra, uma vez que o nível linguístico estabelece relação com o social.   

Em sua conversa com Antônia Fontenelle, após defender a suposta neutralidade de formas masculinas na língua portuguesa, Cíntia Chagas acrescentou que “na língua portuguesa, o masculino é também neutro, ele já abarca o feminino. Isso é regra, as pessoas não podem simplesmente mudar regras”. Novamente, a professora apresenta um argumento comumente utilizado por pessoas contrárias à linguagem neutra, isto é, que regras gramaticais não devem, nem podem, ser alteradas. É possível analisar a afirmação de Cíntia Chagas a partir do que Anne Curzan, linguista estadunidense, denomina falácias etimológicas (etymological fallacies). De acordo com a autora, tais falácias defendem a existência de “significados corretos” e essenciais, como se a língua fosse imutável e, além disso, dotada de uma suposta verdade. Assim, falácias etimológicas são frequentemente utilizadas como justificativas contrárias a mudanças linguísticas. Em relação à linguagem neutra, uma falácia etimológica comumente utilizada consiste em afirmar que o gênero gramatical masculino da língua portuguesa advém do gênero neutro do latim. Por conseguinte, argumenta-se que o gênero masculino é também neutro devido a questões etimológicas, isto é, relacionadas à origem histórica das palavras. Curzan, por outro lado, argumenta que o sentido das palavras pode passar por modificações de acordo com as crenças e os usos de falantes. Sendo assim, ao compreenderem a forma masculina como a marcação de um grupo específico e não genérico — ou seja, homens —, comunidades linguísticas marginalizadas, como a de pessoas não-binárias, por exemplo, propõem outros usos tidos como mais inclusivos, como a linguagem neutra. 

Para além de uma falácia etimológica, o argumento apresentado por Cíntia Chagas em sua conversa com Antônia Fontenelle corrobora também a ideia de que a língua deve ser regulada por instituições semelhantes à Academia Brasileira de Letras e por gramáticos, de modo que caberia a falantes o papel de respeitar a norma culta contida em manuais. Tanto Coady como Curzan apontam que o uso da história da língua como justificativa para o sistema linguístico contemporâneo naturaliza aspectos socialmente construídos, como o valor genérico da forma masculina. Além disso, vale ressaltar que a  própria história da língua é, em si, permeada por ideologias linguísticas, uma vez que instituições hegemônicas são responsáveis por descrever e prescrever regras de usos linguísticos tomando como base origens etimológicas. Ao levar em conta todas essas questões, os seguintes questionamentos vêm à tona: Quem define o que é ‘certo’ e o que é ‘errado’ na língua? Quais fatores motivam tais classificações? E quais ideologias estão envolvidas nesse processo? Como falantes, não podemos questionar usos hegemônicos?

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