• Bifobia e disciplinas do corpo no BBB21

    Lucas Koka Penteado e Gilberto protagonizaram o primeiro beijo gay do Big Brother Brasil (Foto: Reprodução TV Globo)

    Depois do recorde de audiência em 2020 e de uma edição cheia de polêmicas, a expectativa para a estreia do Big Brother Brasil 2021 estava alta neste verão. Entre famosos (Camarote) e anônimos (Pipoca), os participantes finalmente foram revelados e esta passa a ser a edição do programa de mais longa duração: 100 dias de confinamento na casa mais vigiada do país.

    Written on 04.05.2021 in Cultura Read more...
  • Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!
    Os livros de Literatura NÃO te disseram ISTO!

    Ah! O Brasil no século XIX! Quem não adora pensar sobre a vida nessa época? No Rio de Janeiro, em 1808, a família real portuguesa aportava e trazia inúmeras mudanças para a vida na cidade. Mais tarde, em 1822, um português declarou a independência brasileira em relação a Portugal. No Maranhão, mais para a metade do século, Maria Firmina dos Reis escrevia poemas, contos e romances.

    Written on 21.04.2021 in Cultura Read more...
  • A captura dos Friedman e BBB – antigas tragédias em novas mídias

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    Pôster do filme Capturing the Friedmans ©Andrew Jarecki

    Na Captura dos Friedman, documentário realizado pelo diretor Andrew Jarecki, e BBB21, reality show transmitido pela Rede Globo, dizem muito sobre algumas indagações de nossos tempos. Na película, o enredo e estrutura são relativamente simples. Um professor de informática, Arnold Friedman, e um de seus filhos, Jesse, são acusados de envolvimento em práticas pedófilas, a partir da interceptação, por parte da polícia, de revistas pornográficas em sua casa. Após um período de ampla investigação policial, os dois são presos, julgados e condenados a vários anos de prisão.

    Written on 01.04.2021 in Cultura Read more...
  • Linguagem neutra: usar ou não usar, eis uma das questões

    WhatsApp Image 2021 03 23 at 8.08.31 PMDiscussões em torno da linguagem neutra vêm sendo cada vez mais travadas. Entre meados de novembro e o início de dezembro de 2020, ao menos cinco Projetos de Lei (PL) contrários ao uso e ao ensino da linguagem neutra foram apresentados ao Poder Legislativo — PL 2013/2020, PL  3325/2020, PL 5248/2020, PL 5198/2020 e PL 5385/2020. A linguagem neutra é recorrentemente tematizada também no âmbito das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, por exemplo. Em relação a esta última, no dia seis de outubro de 2020 foi transmitida uma live entre a youtuber Antônia Fontenelle e a escritora e professora de língua portuguesa, Cíntia Chagas. De acordo com a youtuber, o intuito de discutir sobre linguagem neutra em seu canal seria o de “abrir os olhos das pessoas” para a “barbárie”. Para tanto, Cíntia Chagas, sua convidada, lançou mão de um argumento comumente apresentado por quem se opõe  à linguagem neutra: “No latim, a gente tinha as palavras femininas, masculinas e neutras. Quando o neutro caiu, o neutro caiu para dar lugar apenas ao masculino. O masculino, ele tem essa função do neutro”, afirmou. Nesse sentido, a professora ainda complementou sua fala e caracterizou o uso da expressão ‘todos e todas’ como “burrice”, pois somente ‘todos’ já incluiria ambos os gêneros masculino e feminino.  Logo, de acordo com tais afirmações, não haveria necessidade de ensinar e utilizar uma linguagem neutra, pois a língua portuguesa já possui recursos de neutralização, como o  uso do masculino genérico. 

    Written on 23.03.2021 in Gênero e sexualidade Read more...
  • O tempo narrativo, o general e as memórias de nossos tristes futuros

    Sempre fui fascinado pela questão do tempo, de como ele se manifesta em nossa consciência e de como nós narramos as nossas experiências ancoradas na percepção que nós temos desse fenômeno. Segundo Agostinho de Hipona (354-430), mais conhecido como Santo Agostinho, a dimensão temporal é parte exclusiva da condição humana, sendo vivenciada em três camadas interconectadas: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras. Como estudioso da linguagem, tendo a compreender que a nossa relação com essas dimensões temporais se dá, principalmente, através do discurso e, mais particularmente, através do discurso narrativo. Ao realizarmos as nossas performances discursivas, a nossa percepção do tempo se restringe ou se expande, dependendo de fatores tais como o nosso contexto social; aquilo que estamos vivendo; nossas emoções (prazer, dor, alegria, tristeza, indiferença etc.); as respostas das pessoas à narrativa que estamos produzindo; as memórias que elas evocam; e, as avaliações que fazemos do mundo e das pessoas ao nosso redor. Por todas essas e outras questões, uma apreensão objetiva do tempo, mesmo no plano narrativo, seria, senão impossível, sempre elusiva e dependente de muitos fatores.

    Written on 08.03.2021 in Política Nacional Read more...

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A captura dos Friedman e BBB – antigas tragédias em novas mídias

por Branca Falabella Fabrício e Clarissa Gonzalez (PIPGLA/UFRJ) 01.04.2021

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Pôster do filme Capturing the Friedmans ©Andrew Jarecki

Na Captura dos Friedman, documentário realizado pelo diretor Andrew Jarecki, e BBB21, reality show transmitido pela Rede Globo, dizem muito sobre algumas indagações de nossos tempos. Na película, o enredo e estrutura são relativamente simples. Um professor de informática, Arnold Friedman, e um de seus filhos, Jesse, são acusados de envolvimento em práticas pedófilas, a partir da interceptação, por parte da polícia, de revistas pornográficas em sua casa. Após um período de ampla investigação policial, os dois são presos, julgados e condenados a vários anos de prisão.

No programa televisivo, 20 candidatas/os a um prêmio no valor de um milhão e 500 mil reais são trancados dentro de uma casa sem contato com o mundo exterior. Tudo o que fazem durante as 24 horas do dia pode ser acompanhado por espectadoras/es via streaming ou pay-per-view e os “melhores” momentos são exibidos diariamente em televisão aberta pela Globo. Ganha o prêmio quem conseguir permanecer na casa até o final. Até lá, terá que lutar para não ser eliminada/o. Para conseguir tal objetivo, precisará se esmerar e ganhar provas a fim de conquistar ‘imunidade’. De contrário, poderá ser indicado pelas/os companheiras/os para o paredão. Das/os três indicadas/os, a/o mais votado pelo público deixa a casa. Não basta, portanto, sobreviver ao confinamento (tema que encontra cruel semelhança com a realidade pandêmica que atravessamos), com o diferencial de que ali a convivência se dará com desconhecidos/as e sob intensa vigilância. Como se fosse pouco, o programa incentiva todo tipo de disputas internas, não se limitando aos paredões e às provas que definem quem será líder, anjo etc. O atual apresentador do reality show, Tiago Leifert, seguindo o roteiro, incentiva todo tipo de saia justa entre as/os participantes, transformando um simples bate-papo em jogo da discórdia. Nele, as/os participantes são obrigadas/os a se posicionarem revelando alianças ou ameaças, quem as/os decepcionou ou deixaria saudade. Com duração prevista de 100 dias, o BBB 21 estreou no dia 25 de janeiro deste ano e deve se estender até a primeira semana de maio. Os brothers e sisters da atual edição, ao serem anunciados, foram divididos em dois grupos: camarote e pipoca. No primeiro, estariam 10 personagens conhecidas/os do mundo do entretenimento: (ex) atrizes/atores, cantoras/es, influenciadoras/es digitais e um humorista. No segundo, 10 pessoas menos conhecidas, de diferentes profissões: modelos, instrutor de crossfit, fazendeiro, professor/mestrando, doutorando, dentista, consultora, psicóloga. Em ambos grupos, havia pessoas negras e LGBTQIA+, o que colocou em pauta a questão da militância. Curiosamente, os três últimos eliminados foram participantes negras/os: Nego Di, Karol Conká e Lumena. Outro participante negro, Lucas Penteado, pediu para sair. Ele havia sido ‘cancelado’ por Karol Conká, a quarta eliminada, com recorde de rejeição. Em nenhuma das outras 20 edições do programa, alguém havia alcançado um índice tão alto (99,17%), beirando a unanimidade.

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Mosaico com os participantes da 21ª edição do Big Brother Brasil ©Rede Globo

No documentário, a trama é construída a partir de um vasto e rico conjunto de imagens e depoimentos gerados pelo noticiário midiático da época (meados dos anos 80); pelos próprios Friedman, cujos membros tinham por hábito documentar – em filme, vídeo e áudio – a vida cotidiana da família; e pelo diretor, que realiza entrevistas atuais com os participantes da investigação.

É assim que – por meio de múltiplos olhares, declarações, supostas evidências e dados comprobatórios – temos acesso a uma família americana de classe média residente em Great Neck, pacato e aprazível subúrbio de Long Island. O local retratado na película exala tranquilidade, contrastando com o turbilhão de sentidos produzidos pela comunidade que nele habita. Aos poucos, variados testemunhos compõem um intricado perfil dos Friedman, sobretudo de seu patriarca Arnold – físico graduado pela Universidade de Colúmbia, músico, e respeitável professor de informática e de piano. Pai presente, seu hobby é registrar com uma câmera o seu dia-a-dia ao lado da mulher Elaine e de seus três filhos, David, Seth e Jesse.

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Arnold Friedman (o pai, à esquerda), Jesse (filho mais velho, no meio, de óculos), David (filho do meio, ao lado da mãe), Elaine Friedman (a mãe, à direita) e Seth (o caçula, à esquerda do pai)

“Meu pai era ótimo”; “Era um homem generoso e altruísta”, diz David, o primogênito. “Eles têm uma imagem idealizada do pai”, observa a mãe, Elaine. “A visão das pessoas é distorcida”, ela complementa. “Arnold era um marido amoroso, bom irmão e bom cidadão”, pondera o irmão mais velho. “Um monstro!”, assevera o pai de um ex-aluno. É dessa forma que espectadores/as são desafiados/as a se embrenhar em uma trama de narrativas, imagens e discursos que se contradizem, formando uma teia em permanente reconfiguração, a cada novo fio que se entrelaça ao arranjo que mal acabara de formar-se. A profusão de vozes concorrentes de pessoas direta ou indiretamente ligadas ao caso – familiares, amigos, ex-alunos, pais de ex-alunos, membros da comunidade, advogados, detetives de crimes sexuais, assistentes da promotoria, inspetores, secretário da juíza que julgou o caso, a juíza em questão e uma jornalista investigativa – movimenta a rede semântica em uma desorientação desconcertante, inviabilizando a constituição de qualquer conclusão apaziguadora. Somos lançados, assim, em um labirinto de sentidos que nos coloca face a face com o insondável, a imprecisão e a impossibilidade de formulação de alguma forma de verdade. Ao sermos convocados a participar do processo de captura dos Friedman, como solicitado pelo título do filme (Capturing the Friedmans), a única certeza que podemos construir é a de que esse é um convite-armadilha. A busca de apreensão da materialidade dos fatos ou de uma causalidade definitiva é frustrada, pois a própria lógica do filme desmonta a possibilidade de existência de um perseguido ideal: nossa vontade de verdade.

Quem são os Friedman? Qual história é mais próxima da realidade dos acontecimentos? Quem está com a razão? Foi feita justiça? Qual a verdadeira natureza de Arnold? Prováveis respostas só têm lastro no amálgama de todas as perspectivas apresentadas no filme e na coexistência de múltiplos pontos de vista, contradições, e inconsistências – que não produzem uma explicação definitiva. Qualquer costura ou remendo confortável se desfaz. Só podemos mesmo contar com a profusão de discursos apresentados, acrescidos do somatório dos olhares de cada espectador/a. Essa conjuntura de significados pode dar margem a infinitas versões sobre os Friedman, que se revestem de certos efeitos-verdade de acordo com o repertório valorativo de cada época. Chegamos à angustiante conclusão de que, se dependemos do olhar do outro, e se é o outro que nos captura e nos “fixa” em algum lugar, não controlamos quem somos, tal o nosso envolvimento em um constante jogo cênico.

A possibilidade de aprisionamento de pessoas em estereótipos identitários é grande em situações como a discutida no filme. O próprio diretor parece sucumbir a essa tentação, ao conduzir o/a espectador/a a visitar episódios conturbados na infância de Arnold, entre eles a morte de uma irmã, que poderiam justificar seu comportamento como adulto. A condenação de Arnold e seu filho por envolvimento com pedofilia parece ser um exemplo dessa organização da cultura perante a outridade estereotipada.

É possível que a pedofilia tenha sido um atributo identitário de Arnold em diferentes fases de sua vida (e o roteiro parece sugerir que sim). As acusações de práticas pedófilas na escola, contudo, não parecem nada razoáveis.

A vontade de saber

O que vemos em Na Captura dos Friedman é a ocorrência de uma síndrome semântica que, assolando a comunidade de Great Neck, cria verdadeiro surto de significação autopropagante a respeito de possíveis práticas pedófilas que teriam vitimado todo um conjunto de alunos de 8 a 11 anos de idade. A “sentidomania” estimula uma busca frenética por evidências que mobiliza toda a imprensa da época, colaborando para a fabricação de uma narrativa grupal cujos coadjuvantes são meninos que teriam sido violenta e recorrentemente sodomizados pelos protagonistas Arnold, o professor, e Jesse, que atuava como uma espécie de monitor nas aulas do pai. A monstruosidade teria ocorrido durante todo o curso de informática (dentro e fora da sala de aula), ao longo de vários anos, sem que os pais dos envolvidos tivessem percebido sinais de mudança física ou comportamental em seus filhos. Alguns relatos chegam a ser fantasiosos, mas constroem a identidade de uma comunidade vitimizada. Tal situação leva a uma competição entre discursos conflitantes, criando critérios de pertencimento àquela sociedade imaginada; os que não aderiam ao roteiro da performance teatral estavam marginalizados. A lógica do binômio cultural exclusão/inclusão, que acena com a possibilidade de rejeição da comunidade, bem como o assédio incessante dos policiais, levou, segundo um entrevistado, a um movimento de invenção estratégica de textos denunciadores por parte de algumas das supostas vítimas.

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Um policial acompanha Jesse e Arnold Friedman durante o julgamento de ambos

“É surreal”, desabafa Jesse. Causa mesmo estupefação o fato de apenas uma jornalista investigativa lançar um olhar crítico sobre a plausibilidade dos textos construídos, segundo ela, a partir de uma “histeria coletiva”, enquanto todo um batalhão de peritos e participantes da investigação aceita sem questionar a versão policial acerca da culpabilidade dos dois personagens principais. Testemunhamos, por conseguinte, a produção ativa de verdades dentro dos discursos sobre os Friedman, que passam a ser um lócus privilegiado não só de investigação, mas também de produção de conhecimentos especializados, de certezas e de manutenção da ordem e do ideal de justiça. O respaldo da mídia, que ganha salvo-conduto para registrar todas as cenas do tribunal e fases do julgamento, é central na construção da trama semiótica incriminadora, sendo responsável pela circulação, sensacionalização, e massificação do episódio incontestável de “abuso sexual”.

Se visto pelas lentes foucaultianas, o discurso da mídia pode ser considerado como tecnologia de poder, construtora e divulgadora de conhecimentos e “verdades”, pois é capaz de criar fatos e instaurar realidades, desempenhando um papel central no fluxo dos acontecimentos. Gera efeitos de verdade, constituindo e legitimando corpos, valores, atitudes, crenças e normalidades. É esse processo que o documentário em foco nos permite observar.

O discurso da mídia, desde o final dos anos 80, incorporou novas tecnologias de poder com o advento da internet e, posteriormente, das redes sociais. Mudou o modo de se produzir e consumir informação. Certos anseios, porém, como a vontade de verdade, permanecem incólumes. A condenação pública de Karol Conká no BBB 2021 é um desses casos que, cada vez mais, pululam na mídia.

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Impressão de tela da apresentação de Karol Conká ©Rede Globo

Com uma carreira de cantora e apresentadora já consolidada, Conká topou participar do reality show mais assistido do país. Talvez porque o BBB pudesse ajudá-la a ganhar maior projeção nacional e, quiçá, impulsionar novos projetos. O tiro, porém, parece ter saído pela culatra: a sister pode até ter se tornado mais conhecida do grande público, mas o saldo, aparentemente, não seria muito positivo. Conká se converteu na grande vilã da atual edição do programa e perdeu mais (seguidores, contratos etc.) do que ganhou. Já na primeira semana, desentendeu-se com o ator Lucas Penteado. O brother havia sugerido formar um grupo de negros, que rivalizaria com os participantes brancos. Isso, somado ao desentendimento que ele teve com outra participante (Kerline) durante uma festa, contribuiu para que Conká o cancelasse e sugerisse que as/os demais fizessem o mesmo. Durante as semanas subsequentes, Lucas passou a ser ignorado de forma quase unânime pelas/os outros/as participantes e humilhado por Conká. Além de isolá-lo, ela não permitia que Lucas se sentasse à mesa enquanto ela estivesse comendo e o recriminava quando ele se aproximava ou adentrava ambientes nos quais ela se encontrava. Depois de outra festa, em que Lucas e Gil se beijaram, o participante passou a ser criticado também por assumir-se bissexual. Psicóloga, DJ e principal aliada de Conká, Lumena, que se destacava no reality por militar em prol da causa negra e lésbica, sugeriu que Lucas havia beijado o outro rapaz apenas para angariar simpatizantes e acusou-o de performar uma bissexualidade fake. Isso contribuiu para que Lucas decidisse abandonar o programa. Fora da casa, o participante recebeu apoio de grande parte da audiência e de artistas que se solidarizaram com ele. Foram organizadas vaquinhas virtuais na tentativa de ajudá-lo a arrecadar dinheiro para realizar o sonho da mãe de ter a casa própria (ele teria topado participar do programa com tal ambição como meta). Conká, em contrapartida, passou a ser odiada. Lumena também. As duas já foram eliminadas do programa.

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Beijo entre os participantes Lucas e Gil ©Rede Globo

Se decidíssemos rodar um documentário sobre linchamento midiático no Brasil de hoje, dificilmente encontraríamos personagem mais adequado que a referida cantora e apresentadora. Eis aí dois casos de ‘captura’ simultaneamente tão distantes e tão próximos. Ambos tratam de supostos desvios de conduta: pedofilia x humilhação. Entretanto, apesar da afinidade temática, os dois eventos se diferenciam pela posição espaço-temporal (EUA de final dos anos 80 e Brasil de 2021) e por diferentes tecnologias de poder às quais o discurso midiático, em cada um dos casos, alia-se. Desde 1987, quando a polícia irrompeu na casa dos Friedman em pleno feriado de Ação de Graças e levou Arnold preso, o caso despertou grande interesse nos meios de comunicação estadunidenses. Em pouco tempo, os Friedman passaram a ganhar destaque no primetime, ou seja, no horário mais disputado – e caro – das cadeias de TV dos Estados Unidos. Conforme detalhes sobre o caso fervilhavam nos telejornais, crescia, na sociedade norte-americana, uma desenfreada vontade de verdade. Cada informação nova, depoimento, suposta pista parecia capturar ainda mais a atenção dos/as telespectadores. A combinação de vontade de verdade, audiência hipnotizada e aumento nos lucros com venda de espaços publicitários nos intervalos dos telejornais, (especialmente os noturnos) mostrou-se tão feroz quanto inconsequente. E tal como as bruxas de outrora, os Friedman foram lançados à fogueira. Neste caso, midiática.

Algo similar aconteceu com Karol Conká nos primeiros meses de 2021 em nosso país. Eliminada do programa Big Brother com um índice de rejeição recorde de 99,17%, a ‘canceladora’ foi cancelada e teve que deixar os estúdios da Globo com escolta reforçada. Porém, diferente do que aconteceu com os Friedman nos anos 80, as retaliações que culminaram no ‘cancelamento’ de Conká se deram via mídias sociais. Por mais que o programa seja exibido em televisão aberta, a mobilização para cancelá-la (sim, porque não bastava eliminá-la do BBB) foi urdida majoritariamente entre Twitter, Facebook e Instagram. Nessas redes sociais, circularam fragmentos de cenas do reality show, o que contribuiu para converter Conká na Odete Roitman do BBB 21.Essa comparação com a maior vilã da teledramaturgia brasileira, feita pelo próprio diretor do programa, não parece exagerada quando vemos notícias e comentários que foram postados e/ou compartilhados nas redes: do pedido de um repórter ao vivo, que clamava pela eliminação da participante do programa, à produção de um videoclipe com o mesmo objetivo, foram diversas as manifestações públicas de desaprovação à performance de Conká durante os dias em que ela esteve encerrada na Casa do Big Brother. Podcasts, vídeos, memes, publicações e/ou compartilhamentos em redes sociais, blogs e microblogs logo converteram a anunciada eliminação num assunto de interesse nacional. Foi tema de debate em diversos programas de TV e em canais de youtubers, como Felipe Neto, que, com mais de 42 milhões de seguidores, consegue ter maior audiência projetada que os principais telejornais e novelas do país. Tais manifestações de repúdio à participante, pelo teor inflamado que muitas continham, não a transformaram apenas em trend topic no Twitter ou em campeã de visualizações no IGTV. Transformaram-na em persona non grata e fizeram com que a rejeição ultrapasse os limites do jogo televisivo e da esfera virtual, ganhando materialidade na forma de ameaças à sua integridade física e a de seu filho, gerando substanciais prejuízos econômicos (patrocínios e shows foram cancelados) e também retaliações, que afetaram profundamente a carreira de Conká e sua imagem.

As histórias de Arnold, seu filho Jesse e Karol convergem na experiência de exclusão. Em ambos os casos, a vontade de verdade, tão perseguida quanto inalcançável, produziu efeitos muito concretos. Contribuiu para a decomposição da família Friedman e para abalar a carreira e a imagem pública de uma mulher negra engajada na luta antirracista. Entretanto, há uma diferença de escala quanto à forma de circulação de sentidos em contextos televisivos e digitais. O ritmo de disseminação de textos, imagens e discursos na web é outro. A aceleração é crescente. O tribunal acusador tem potencial numérico incomensurável para julgar o quão inocentes ou culpados seriam Friedmans e Conkás em diferentes contextos. É preciso um exercício reflexivo constante para não sucumbir à vontade de verdade, grande armadilha. O escrutínio crítico do efeito de certas práticas discursivas e, mais especificamente, do modo como o discurso das mídias se vale de tecnologias de poder, cada vez mais diversas e onipresentes na cena contemporânea é fundamental.

A onipresença das mídias na cena contemporânea, por certo, tem sido a tônica de discussões em diferentes campos do conhecimento. Sua atuação é frequentemente relacionada à expansão do mercado e à decorrente necessidade de formação de um público consumidor. Nesse sentido, ela é entendida por muitos como produto cultural sofisticado e complexo, imprescindível à lógica das relações capitalistas, segundo a qual todas as áreas da vida social se tornam mercadorias. A mercantilização generalizada de ideias, imagens, corpos e sexualidades faz parte dessa seara de consumo.

A mídia mercantilizada vende tudo: provoca desejos e (des)afetos, estimula rivalidades, capitaliza em cima de disputas e polarizações, excita corpos e glamouriza modos de vida, criando modelos de conduta com os quais muitos irão se identificar e consumir no mercado das relações sociais. Contribui também, em nome da liberdade de expressão, para a produção de novos sentidos, tendências comportamentais, medos e riscos. Vale tudo nesse processo criativo: sensacionalismo, apelação, sondagem da miséria humana, divulgação apressada de explicações “definitivas” sobre acontecimentos, punições, afirmações sobre a causalidade de fenômenos, ou, até mesmo, fabricação de fatos.

Algumas notícias viram mesmo best sellers culturais, tornando-se a ambição de jornalistas. Casos de linchamento são desses fatos que vendem. Assim, dar destaque a eles, estimulando um excesso de atenção, significa incentivar a produção de um frenesi de significação, que, como um ímã, atrai olhares, curiosidades, sistemas de nomeação e considerações morais, ao mesmo tempo em que promove uma hiperincitação de discursos que instauram um campo de conduta e de roteiros comportamentais culturais; e paradoxalmente o produzem e o recriminam; quanto mais o recriminam, mais o promovem. Produz-se, assim, uma epidemia de significados em rede que, esvaziados de qualquer estranhamento, passam a integrar nosso imaginário.

Nos casos aqui contemplados, as mídias prestam um desserviço ao ignorar as dimensões epistêmicas, éticas e socioculturais decorrentes da ligação entre conhecimento, subjetividade, tecnologia e mercado. Os efeitos desse desconhecimento epistemológico são muitas vezes nefastos para a vida social. Entretanto, o movimento midiático é paradoxal e contraditório. É inegável que ele contribui para maior reflexividade e multiplicidade de referências; faz circular discursos desejáveis sobre princípios para a vida em sociedade; e pode ocasionar a rearticulação de formas de vida aprisionadoras. Entretanto, simultaneamente, estetiza e banaliza a degradação e o horror. De modo análogo, ao mesmo tempo em que radicaliza as estratégias de conquista de audiências cada vez maiores, se pauta por normas, valores e considerações éticas que orientam o comportamento de grupos e indivíduos.

Em Na Captura dos Friedman assistimos ao trágico esfacelamento de uma família que, ao tornar-se alvo de uma fiscalização pública invasora, tem sua vida privada vasculhada pela justiça e pela mídia, enfrentando o drama da desarticulação familiar. No BBB2021, a/o espectador/a, além de “presenciar” os conflitos a partir de vários canais midiáticos, pode incidir diretamente sobre eles, ajudando a criá-los ou a pôr fim aos mesmos. Primeiro porque é o/a espectador/a que decide quem é eliminada/o do programa. Segundo porque a/o espectador/a do terceiro milênio não apenas consome como também produz um grande volume de informação circulante. Cenas reeditadas e/ou comentadas de Conká humilhando outro participante, expulsando-o da mesa ou criticando o suposto mau hálito dele, bem como outros comentários desqualificativos que ela teria proferido contra nordestinos, circularam amplamente nas redes sociais. Outras/os internautas não se limitaram a usar conteúdos produzidos pela rede Globo, tendo veiculado material de produção própria. Toda essa informação, à diferença do que acontecia nos 80, hoje pode ser ‘prosumida’, ou seja, produzida e consumida, em diferentes suportes ([Smart] TVs, tablets, computadores, celulares etc.) e em diferentes horários (o que é possibilitado pelos serviços de streaming e publicações em redes sociais). Não por casualidade, o primetime já não tem o apelo mercadológico de outros tempos. Em contrapartida, serviços de streaming ganham cada vez mais adeptos.

Essas facilidades ofertadas pelas novas tecnologias da informação democratizam o acesso a meios de comunicação. Isso, por um lado, torna o slogan do Youtube (“broadcast yourself”) tão convidativo quanto real. Por outro lado, permite que cada usuário/a se torne um/a juiz/a em potencial, valendo-se de redes sociais, blogs/microblogs e sites para ditar suas sentenças, propagar suas verdades. Uma das consequências mais imediatas e evidentes dessas novas práticas, em um país tão polarizado politicamente como o nosso, aponta, como afirma Bentes, para a emergência de uma “economia do ódio”, ou seja, “um modelo de negócio lucrativo porque envolve audiência, engajamento e participação em níveis massivos. O ódio e a rivalidade mobilizam”. Além de mobilizar, excitando e incitando a audiência a participar de linchamentos/cancelamentos, banalizam a mídia, uma vez que aposta no reducionismo (posicionamentos extremos), na refração (mídia formadora/refratora de opinião) e na repetição (mais do mesmo: predileção por fórmulas que já se mostraram rentáveis).

Tendo em tela questões controversas como as aqui elencadas, é preciso considerar o papel fundamental dos mecanismos de banalização da mídia na movimentação dos saberes e na desestabilização de certezas, bem como a relevância de trazer para o debate público questões como as aqui contempladas (consumo de pornografia e práticas pedófilas, linchamentos/cancelamentos midiáticos, histeria coletiva, humilhações públicas, preconceitos étnico-demográficos etc.). Ao trabalhar no cruzamento de tradição, senso comum, moralismos e escândalos sensacionalistas que desafiam dogmas culturais, não se pode ignorar que a mídia também instaura a possibilidade do novo e do avanço nos modos de pensar. Ela pode produzir desconcertos – aspecto inegavelmente positivo, apesar dos dilemas apontados. Esse é um dos paradoxos de nossa época. Abordá-lo significa exercitar nosso potencial criativo para que não caiamos nas falácias simplórias do julgamento moral de veículos ao mesmo tempo tão úteis e perversos.

Práticas imagéticas contemporâneas: cultura, tecnologia e subjetividade

O desenvolvimento dos meios de comunicação vem proporcionando crescente difusão dos produtos da mídia, fenômeno cujo impacto para a vida social tem sido foco de amplo debate na atualidade. Uma consequência, apontada dentre os muitos desdobramentos do avanço da indústria da tecnoinformação, é o progressivo grau de entrelaçamento de efeitos visuais, efeitos-sujeito e efeitos semânticos – todos atrelados a efeitos-algoritimicos. E em outras palavras, a crescente presença de uma estética plástica em circulação frenética nas ações, interações e relacionamentos humanos na vida cotidiana atrela, inevitavelmente, o processo de atribuição de sentidos à semiótica visual de nossa época. A vida contemporânea é, assim, cada vez mais forjada por um intercâmbio de experiências imagéticas – possibilitadas pelas imagens produzidas pela TV, imprensa, cinema, e ambientes digitais – que se fundem dinamicamente à própria experiência do dia-a-dia. É dessa forma que idealizações audiovisuais proporcionam formas de construção de novas sociabilidades, novas subjetividades e novos padrões de interação indissociáveis das imagens que nos rondam. É como se vida e tela – na qual figura toda sorte de miragens luminosas – ou cultura e imagem tivessem se tornado híbridos inseparáveis. Pouco importa se o que circula na tela (da TV, do cinema ou do smart phone, por exemplo) se refere, na maioria das vezes, a experiências não diretamente vividas. A tecnovisualidade contemporânea participa de novas formas de ser sujeito. É preciso estarmos sempre alertas aos jogos de verdade que eles suscitam.

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