• Para além dos sudestinos

    Desde a década passada, vem crescendo um movimento entre a classe de atores humorísticos de busca por um novo tipo de humor. Esse movimento se afasta de piadas xenofóbicas, homofóbicas e dos estereótipos que, por anos, foram vistos como temas engraçados por nossa sociedade – a mulher loira burra, o gay afetado, o malandro carioca etc. O apelo humorístico de tais temáticas vem sendo questionado contemporaneamente, tendo perdido espaço entre o público mais socialmente engajado. Uma nova geração de humoristas conecta seu olhar às questões cotidianas, fomenta provocações e subverte a ordem de fatos históricos instigando a reflexão e a mudança de olhar.  Enfim, é um humor muito mais desafiador e politicamente engajado. 

    Written on 14.12.2021 in Cultura Read more...
  • Conversa entre amigos sobre morte, esperança e um outro-lugar

     Um dia, em uma conversa entre amigos...

    Janaina – Era hora do almoço, eu estava sentada no chão do quarto fazendo algo de que não me recordo, quando a notícia, vinda do quartinho de costura da minha mãe (que sempre ouviu a TV no último volume por causa do barulho do motor da máquina), atravessou a janela e chegou aos meus ouvidos: o novo coronavírus. Na China. Muito letal. Não sabemos a origem. “É questão de tempo até começarmos a viver isso aqui, e agora?”, eu pensei. Chorei e orei. Meses depois, quando ainda nem se falava do uso da máscara, encaro o trajeto Nova Iguaçu – Pavuna – Central – Fundão, para a primeira aula do mestrado na UFRJ. Separo um álcool 70 e fico um pouco apreensiva com os espirros e tosses dentro do vagão abarrotado. Duas semanas depois, parecíamos ter nos transportado para um mundo paralelo dessas séries da Netflix, ou melhor, para uma distopia.

    Written on 01.12.2021 in Cultura Read more...
  • “Por quê não usar capacete?” A culpabilização da vítima nos deslocamentos cotidianos

    No dia 08 de novembro de 2020, Marina Kohler Harkot foi atropelada e morta enquanto pedalava para sua casa na cidade de São Paulo. Marina tinha 28 anos. Cursava doutorado na USP, onde desenvolvia pesquisa sobre mobilidade urbana. Antes de sua morte precoce, nossas trajetórias acadêmicas se cruzaram apenas uma vez, no transcorrer de um seminário transdisciplinar, do qual fui uma das idealizadoras. A fim de participar, Marina se deslocou da cidade de São Paulo para o Rio de Janeiro e cativou as demais participantes com sua verdadeira vontade de fortalecer uma rede para além daquele mundo estritamente acadêmico. Para a jovem pesquisadora, aquilo não representava apenas mais um certificado, ou item no currículo lattes. Apesar de pertencer a campos de saber convencionalmente isolados, era nítido que compartilhávamos um ideal: a construção de cidades mais humanizadas - para a qual a própria vivência em cima da bicicleta era indissociável de qualquer reflexão acadêmica. Ansiava pela possibilidade de colaborações futuras. A pesquisa de Marina foi brutalmente interrompida, assim como a vida dela. Este curto texto se insere na busca da qual a doutoranda fazia parte, ao lançar um olhar crítico para a violência de que ela mesma foi vítima, buscando gerar conhecimento sobre sua dimensão discursiva, muitas vezes negligenciada pela pesquisa em Estudos da Linguagem.

    Written on 16.11.2021 in Cultura Read more...
  • Chaves é melhor do que Friends
         
     

    A pichação possui registros históricos. Ela aparece nas paredes de Pompeia, cidade destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79. Com a popularização do aerossol, após a Segunda Guerra Mundial, a pichação ganha agilidade com a utilização do spray, amplamente manuseado na revolta estudantil de 1968 em Paris. No Brasil, o primeiro registro de pichação como arte foi o emblemático “Abaixo a Ditadura”. Era o começo da street art brasileira. Assim, a pichação política nasceu no meio universitário nacional, por meio de inscrições simples, uma vez que demandavam velocidade para escapar da repressão policial. Com o passar do tempo, as inscrições foram difundidas no meio urbano, fazendo surgir pichações não só em muros, mas em construções públicas, viadutos e monumentos. Nenhuma das pichações vinha ou vem assinada, sendo sua característica proeminente apenas a ideia de contrariedade ao regime.

    Written on 02.11.2021 in Cultura Read more...
  • Mãe Bá e os privilégios da branquitude

    Mãe Bá morreu no dia 11 de fevereiro de 2020. Era assim como eu chamava a minha segunda mãe. Ela faleceu antes que a pandemia nos tomasse de assalto. Por seu estado de saúde frágil, começou a usar máscara bem antes de nós: tinha a imunidade baixa e qualquer resfriado poderia complicar muito a sua situação. Estava internada em um bom hospital e fazia tratamento em uma das melhores clínicas oncológicas do Rio de Janeiro, porém, nada disso foi suficiente e ela terminaria dando adeus a este plano da existência. Perdeu a batalha para um tipo raro de leucemia. Já tinha tido câncer de mama há dez anos e pensávamos que se havia livrado de um rebrote. Infelizmente, estávamos equivocados. Só agora, um ano e meio depois, consigo me manifestar sobre o assunto. Talvez porque, apesar de sermos seres de linguagem, quando tomados por uma dor tão grande como a perda de uma pessoa amada, nos vejamos incapacitados de produzir entendimento sobre a experiência de sofrimento. 

    Written on 19.10.2021 in Raça/Etnia Read more...

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Sofrimento acadêmico na pandemia e suicídio da população negra

por Hellem Espíndola (UNESA, PIPGLA/UFRJ) 01.06.2021

Em 31 de dezembro de 2018, o Ministério da Saúde lançou uma cartilha1 em que foram elencados os grupos de maior vulnerabilidade ao suicídio entre os jovens brasileiros. Os dados apresentados são alarmantes, porém não surpreendentes. Como em tudo o que se refere à situação da população negra no país do mito da democracia racial, a pesquisa aponta negras e negros liderando a triste estatística de mortes por suicídio. Em 2021, já há um ano em meio ao enfrentamento da pandemia de Coronavírus, tal realidade apresentada em 2018 não poderia ser mais cruel. A juventude em geral e a negra em particular vivem o aprofundamento da precarização do trabalho. Em consequência, há um movimento escalar de desesperança que caminha a passos largos em todo o mundo. A falta de perspectiva flui em ondas sufocantes, avolumadas por extremistas e supremacistas brancos. 

O agravamento da desesperança nos traz muitos desafios enquanto cidadãos dentro e fora da academia, principalmente porque as questões que nos atravessam se tornam cada vez mais complexas. Evitar as grandes generalizações, tão típicas da modernidade, nunca foi tão urgente. A modernidade segue ignorando o fato de que somos seres diferentes, com histórias de vida diversas, recheadas de lutas, sofrimentos, conquistas e derrotas peculiares. Seguindo esta linha, podemos olhar para os tempos pandêmicos que vivemos e refletir sobre eles à luz de lentes interseccionais, que entrelaçam marcadores de raça, classe e gênero, entre outros. Tal perspectiva pode produzir um tipo de empatia capaz de minimizar dores.

Há muitas pesquisas e debates importantes que esclarecem o adoecimento acadêmico. Pinheiro-Machado2, por exemplo, escreveu um importante artigo intitulado Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica, em que sublinha vários pontos cruciais deste tipo de sofrimento. O texto viralizou, rendendo muitas rodas de conversa e palestras em todo o país e chamando atenção para o fato de que a academia pode ser (e invariavelmente é) um ambiente onde várias dores se cruzam e onde, infelizmente, muitos jovens podem passar por situações que funcionam como fatores de risco com o potencial de os levarem a atentar contra suas próprias vidas. O entendimento da questão é complexo e demanda um olhar vigilante para a vida cotidiana. Muitas camadas de sentidos entrelaçadas podem ser apontadas quando olhamos, por exemplo, para a categoria “juventude brasileira”. De modo simplificado, o senso comum se apoia em características tanto biológicas quanto psicológicas que nos fazem cair em armadilhas reducionistas e generalizadoras. Elas engessam as possibilidades de ação ao tirar o foco das demandas reais de jovens em sofrimento.

Em 2017, uma matéria do portal online Folha de São Paulo traz a história de Monique França. À época, a médica recém formada pela UERJ e egressa de uma turma de cotistas do curso de medicina, conta parte de sua história vivida em um curso universitário de elite e ainda predominantemente branco. É a história de uma mulher negra, periférica, brasileira e vencedora, mas é também a história de muitas dores e de inúmeros episódios de racismo. Nenhum de nós vive a mesma história e ao generalizarmos “a juventude”, “os universitários” ou mesmo “os alunos cotistas” e “a juventude negra”, estamos contribuindo para o apagamento de padecimentos que podem levar ao adoecimento acadêmico e, em muitos casos, à morte.

Outro exemplo importante é o filme de 2019 “M8 – Quando a morte socorre a vida”, que também chama a nossa atenção para a importância do olhar interseccional. Na obra, Maurício, um jovem negro e pobre, estudante de medicina de uma universidade federal, vive diariamente, dentro e fora da universidade, situações de opressão e racismo. As dificuldades que enfrenta vão sendo apresentadas ao longo do filme, associadas a suas dores que emergem diante do impacto racial, social, moral, religioso e econômico do que é ser um jovem negro e pobre matriculado no curso de medicina de uma universidade federal. As dificuldades vividas pelo personagem vão muito além daquelas ligadas à capacidade de administração da vida acadêmica, como é o caso da maioria de seus colegas de turma, todos brancos, filhos e filhas da elite. Um dos enfrentamentos mais sofridos vividos pelo rapaz é o de se ver representado nos corpos disponíveis para dissecação no laboratório de anatomia. Todos negros como ele, exemplos de corpos não chorados, não lamentados, esquecidos.

Ressalto que esta não é uma questão de hierarquizar sofrimentos, mas de atentar para o fato de que “os alunos não são todos iguais”. Há aqueles que precisam trabalhar e estudar a despeito da pandemia e que estão, exatamente por isso, mais expostos ao vírus dentro de transportes de massa lotados. Há aqueles que não possuem equipamentos adequados ou acesso à internet eficiente para assistir às aulas e realizar as provas e trabalhos. Há os que acordam com fome e sabem que seguirão assim, pois a geladeira está vazia e não há o que fazer. Muitos não têm um local reservado para estudar, precisando dividir o mesmo cômodo com filhos(as) pequenos(as) e/ou irmãos(ãs) mais novos(as). Há também aqueles que, além de todas as questões mencionadas acima, vivem o dia-a-dia de quem precisa provar para o mundo que sua vida importa e para a comunidade acadêmica que ali é o seu lugar.

É por isso que precisamos olhar para as situações da vida com a luz etnográfica sempre acesa, observando o cotidiano atentamente e complexificando o que o senso comum insiste em simplificar. Essa postura diante do mundo deve também nos levar a desenvolver um olhar interseccional, como nos ensina Kimberle W. Crenshaw (1991)3. Diferentes jovens universitários(as), por exemplo, encenam diferentes configurações identitárias, não apenas de idade e gênero, mas também de raça, classe social e sexualidade. O entrecruzamento desses aspectos pode constituir modos particulares de angústia. Entendê-los  segundo uma categoria única, pode minimizar ou negligenciar situações agudas de sofrimento. Assim, o conceito de interseccionalidade é fundamental não só para o entendimento da pluralidade que nos caracteriza como seres humanos e dos sistemas estruturantes que nos oprimem, mas principalmente para a busca de caminhos de acolhimento igualmente plurais. Segundo a autora, quando os problemas não são nomeados, eles não são enxergados e, consequentemente, não podem ser resolvidos. 

Paulo Vitor Navasconi (2019)4, em seu livro “Vida, adoecimento e suicídio – racismo na produção do conhecimento sobre jovens negros/as LGBTTIS”, chama atenção justamente para a gritante invisibilidade que a falta de recorte interseccional traz para a produção acadêmica sobre o fenômeno do suicídio, geralmente visto pela lógica da branquitude. Desequilibrar esta lógica é o primeiro passo para a construção do cenário interseccional de que necessitamos para entender tanto as particularidades das dores vividas por negros e negras na academia, quanto os números preocupantes sobre o aumento exorbitante de suicídio entre tais jovens recentemente. 

Precisamos olhar para as trágicas circunstâncias da juventude negra, que insistem em reforçar que não vale a pena viver. De fato, tem sido muito difícil lutar pela vida e, não raro, a vida tem ficado pelo caminho para muitos e muitas. Entretanto, entender o que pode levar à morte e  valorizar a vida, sobretudo aquela de quem não costuma ser vista como humana, é responsabilidade de todos. Para Navasconi (2019, p. 209), é preciso “ter coragem, valentia, bravura, esforço, perseverança e, infelizmente, isso não ocorre espontaneamente. É processual. É preciso romper com o habitual, e isso requer coragem, pois romper é um processo doloroso”. Esse é um convite à ação. O que os números oficiais revelam é mais do que dizer que a juventude negra tem se matado mais do que a juventude branca. A juventude negra está na encruzilhada de muitas dores. Como estamos contribuindo para agravá-las/ amenizá-las?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. (2018). Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016/Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Universidade de Brasília, Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade – Brasília: Ministério da Saúde.

2 PINHEIRO-MACHADO, R. (2016). Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica. Acesso em: 30 de março de 2021.

3 Crenshaw, K. (1991). Mapping the margins: intersectionality, identity politics and violence against women of color. In: Stanford Law Review, vol. 43, July.

4 Navasconi, P. V. P. (2019). Vida, Adoecimento e Suicídio: racismo na produção do conhecimento sobre Jovens Negros/as LGBTTIs. Belo Horizonte: Letramento.

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